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Rita Matias num mundo de virgens e vadias
Enquanto movimento político, pois é a única forma de existir, o feminismo sempre produziu tensões internas, sobretudo devido à desconsideração do factor classista.
Tal foi verdade com as sufragistas, que lutaram pelo direito de voto da mulher cedendo ao mesmo tempo quando aceitaram a educação – inevitavelmente dependente da condição económica – como factor diferenciador. Mesmo durante os anos 60, a era mais progressista, factores étnicos ou de orientação sexual demoraram a ganhar espaço para ser incluídos no que agora se designa como feminismo interseccional.
Essa visão do feminismo espelhou naturalmente a mesma dinâmica eurocêntrica do proletariado, cuja discriminação em relação a outras etnias, nacionalidades ou às próprias mulheres sempre existiu na sua génese, como Édouard Louis tão bem retrata, mas ocultada sob o valor maior da união na luta de classes.
Quando a única ideologia restante é a economia, os ideais contraditórios são incorporados passivamente, permitindo a existência de fenómenos como o feminismo invertido de Rita Matias.
Nesses interstícios fracturantes, foram surgindo, felizmente, movimentos capazes de reenquadrar a questão da classe à luz do feminismo, do movimento dos direitos civis ou das pessoas LGBT. Na verdade, foram as roturas internas geradas a partir daí que conduziram a um progresso social mais abrangente e não orientado exclusivamente para a classe média, agora em extinção.
Nesse sentido, a ascensão da extrema-direita nos últimos anos não é uma mudança de paradigma, mas apenas a inevitável destruição da fantasia romântica de a classe trabalhadora ser ideologicamente de esquerda.
Não o era. Não apenas devido à morte das ideologias, mas também por estar cada vez mais em modo sobrevivência e, por isso, forçada a tomar decisões, economicamente e não ideologicamente, numa perspectiva personalizada, mesmo que tal conduza à sua própria auto-destruição, já que se torna cada vez mais óbvio que restam apenas diferentes formas de auto-destruição dentro da presente arquitectura social.
A ascensão da extrema-direita nos últimos anos não é uma mudança de paradigma, mas apenas a inevitável destruição da fantasia romântica de a classe trabalhadora ser ideologicamente de esquerda.
Dessas fendas que a esquerda tem escolhido ignorar, optando por um discurso reformista, quando o desejo é de revolução, o CH tem conseguido, de forma cada vez mais eficaz, já não só explorar as contradições sistémicas, mas criar as suas próprias. Isso acontece sobretudo por não estar refém de qualquer pureza ideológica, dado que não se funda em qualquer ideia, excepto a da vitória a qualquer preço enquanto se apropria de toda a retórica revolucionária, tanto a tradicional da esquerda, como a reaccionária de direita.
Quando a única ideologia restante é a economia, os ideais contraditórios são incorporados passivamente, permitindo a existência de fenómenos como o feminismo invertido de Rita Matias, reclamando a submissão como escolha e substituindo o carácter colectivo pela decisão individual - ela própria objecto de discriminação, não só dentro do partido, mas também por alguns feministas, ao ser retratada como burra ou, por vezes, alvo de violência misógina pelos seus habituais críticos.
Dessas fendas que a esquerda tem escolhido ignorar, optando por um discurso reformista, quando o desejo é de revolução, o CH tem conseguido já não só explorar as contradições sistémicas, mas criar as suas próprias.
Não se trata de uma apologia de Matias, mas de como a sua figura espelha a forma como a cooptação de valores tidos por sagrados gera o mesmo tipo de reacção que critica. Matias, tal como André, é um enigma para o qual não há resposta, porque são a cristalização perfeita de como o fascismo é a verdadeira face do capitalismo, nas palavras de Brecht.
Quando qualquer outra hipótese deixou de estar em cima da mesa, perseveram ao jogar o jogo do absurdo que nos mantém no mesmo tipo de letargia que permite a continuação de um genocídio durante anos, ou tratar questões de segurança nacional como os casos de Luís Neves ou a alegada invasão do parlamento como sketches sobre os quais não temos poder e sem influência na nossa vida quotidiana. Essa é a questão.
Quando surge um movimento de mulheres conservadoras para capitalizar o eleitorado evangélico bolsonarista, também estimulará a realidade binária de virgens e vadias, agregando tanto apoiantes como críticos.
A nossa impotência mediante os centros de decisão, por estarem demasiado ocultos, longínquos e blindados pelo jargão técnico e a ausência de influência directa dos escândalos sucessivos sobre a vida quotidiana, atestam, indubitavelmente, um modelo político de laxismo e corrupção institucionalizados num mundo aparentemente cada vez mais podre, que impele esquerda e direita a reinstituir a moral. Já não uma moral concreta, mas qualquer moral, tornando-se salvífica, pois representa o desejo de restaurar um mundo antes da queda, onde havia valores e não apenas valor.
O CH é exímio a navegar os destroços desse mundo moribundo, por isso, quando Matias surge num movimento de mulheres conservadoras para capitalizar o eleitorado evangélico bolsonarista, também estimulará a realidade binária de virgens e vadias, agregando tanto apoiantes como críticos. Os primeiros, por se proporem a restaurar a sua ordem, depois de terem contribuído para a desordem geral; e os segundos por, na ausência de um projecto próprio e concreto, se unirem, mais uma vez, como oposição e reacção.
No processo, não só se prostitui mais uma expressão tradicional de esquerda como se captura a atenção mediática, deixando terreno livre para a desagregação contínua, nutridora das condições que fixam a extrema-direita, dado que a questão não é ideológica nem económica - consolida-se na clivagem entre essas duas esferas e a do quotidiano, sem vias comunicantes visíveis entre elas.
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