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Fragmentos Alternativos

Fragmentos Alternativos

Existe na Alemanha um projeto musical (com sede em Colónia, no Estado da Renânia do Norte-Vestefália) internacional e inovador, formado em 2014 e designado por Quarteto de Guitarras de Colónia. Com um reportório interpretativo que vai da música clássica à música electrónica, passando pela música contemporânea e experimental, este quarteto é formado por músicos de diversos países (Henrique Almeida, português; Tobias Juchem, alemão; Ptolemaios Armado, grego e Tal Botvinik, israelita) e combina técnicas guitarrísticas e formações instrumentais múltiplas, desde o cavaquinho e guitarra portuguesa à guitarra clássica, guitarra eléctrica, bouzouki grego e instrumentação electrónica. Vamos ouvir aqui o Quarteto numa interpretação de um tema do compositor estado-unidense Steve Reich (do qual falaremos mais à frente).

Este é um projeto multicultural, que reflete a necessidade dos músicos em estarem em permanente contacto e em interação criativa, algo que contrasta com as recentes eleições no Estado da Saxónia-Anhalt (o Estado com o PIB per capita mais baixo - entre os 16 que formam a Alemanha - e com uma população de, aproximadamente, 16 milhões de pessoas) onde a extrema-direita venceu e que causou euforia não só na extrema-direita europeia e nos governos autoritários de Washington e Moscovo, como também na indústria de comunicação social que viu nestas eleições um assunto sério de negócio (assunto sério é, mas não de negócio com todas as superficialidades - técnica fundamental para o negócio, a superficialidade - com que estas notícias são divulgadas).

A racionalidade da extrema-direita é estreita e focada num princípio único: desestabilizar e desacreditar a ténue democracia política.

A agenda da extrema-direita germânica para estas eleições foi a imigração, o fim das medidas para combater as alterações climáticas, a restauração das relações com a Rússia (principal financiador da extrema-direita) e a exploração dos problemas económicos. Claro que todos estes temas foram tratados quase exclusivamente em monossílabos, característica destas forças, até porque a racionalidade da extrema-direita é estreita e focada num princípio único: desestabilizar e desacreditar a ténue democracia política, que sem assentar arraiais na democratização da vida económica, torna-se vítima de si própria e dos monstros que gera. Quanto a Steve Reich (o compositor da peça que ouvimos, interpretada pelo Quarteto de Guitarras de Colónia) ou Stephen Michael Reich, um nova-iorquino dos anos 30, é considerado um dos expoentes da chamada música minimalista, um movimento contemporâneo que surge na década de 60 do século passado, em Nova Iorque.

Utilização de reduzidos fragmentos melódicos e rítmicos, repetição constante de uma frase melódica e variações subtis ao longo do tema, são (grosso modo) as principais características da música minimalista. Em alguns casos, como a obra In C (1964) do compositor Terry Riley, a mensagem é radicalmente subversiva.

As palhaçadas da direita e da extrema-direita parecem-se cada vez mais com novelas turcas dobradas em castelhano e legendadas em português.

In C é uma obra baseada em 53 pequenos fragmentos sonoros, onde não há maestro e em que cada músico decide por si quantas vezes repete cada fragmento e quando passa ao próximo fragmento musical, à próxima célula. A música surge, assim, de um princípio autogestionário, ditada pela liberdade individual de cada intérprete.

E isto é algo que difere da vertiginosa e apocalíptica visão da extrema-direita que caminha em direcção a um abismo repleto de ameaças a tudo e a todos, como uma enorme orquestra formada por músicos mentecaptos (que também os há e em grande número) que reagem aos toques da batuta de um maestro narcisista (que imaginam ser a mão invisível que põe ordem no mercado e nas suas vidas, um mito que ganhou forma com Adam Smith) e que tem como objectivo adulterar o tema que executa. Destruição da imaginação e da criatividade através da repressão (essencialmente económica, naquela base do trabalha e come, mas muitas vezes a velha repressão representada pelo bastão e pelo cavalo-marinho), provocação de um colapso social e ecológico, cenário catastrofista do fim dos tempos, em que é mais fácil conceber o apocalipse total ou o colapso ecológico do que o fim do capitalismo, modo de produção que assenta na degradação contínua de bens materiais, destruição da natureza, cultura de descarte e desigualdade. Vamos então ver, ouvir e sentir um fragmento do In C.

Já na Ocidental Praia Lusitana, o mais que pode ser dito é que o circo está instalado. Não um circo daqueles em que as actividades circenses constituem manifestação de arte, mas um circo rasco, de baixo nível ético e cultural, com ambiente de taberna em decomposição. As facadas nos direitos continuam e em grande escala. As palhaçadas da direita e da extrema-direita parecem-se cada vez mais com novelas turcas dobradas em castelhano e legendadas em português. Educação, saúde, habitação continuam como campos cercados pela direita, em torno dos quais são criados vazios destrutivos e angustiantes. E depois há os palhaços assassinos da extrema-direita que pululam por estas paragens em cada vez mais tempo de antena. É um circo instalado, uma grande superfície de nada, uma arena de espectáculos tristes, mas reveladores do imenso deserto de ideias que reina à direita do hemiciclo.

Na Ocidental Praia Lusitana, o circo está instalado. Não um circo daqueles em que as actividades circenses constituem manifestação de arte, mas um circo rasco, de baixo nível ético e cultural, com ambiente de taberna em decomposição.

Quem foi de férias e voltou, retornou a um quotidiano mais descolorido, feito de fragmentos totalitários, assim tipo aqueles frascos de amostras de perfumes com o mesmo cheiro. Um pouco como um penico que muda de cor, mas mantém o odor dos excrementos... Assim sendo nada melhor do que (antes de arregaçar as mangas para construir a resistência e dar resposta às ameaças que pairam nos céus, terra e mar) ouvir os Telectu:

Rui Peralta

Rui Peralta

Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.

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