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Prometeo, a Greve Geral e a nostalgia pelo futuro
Foi a Greve Geral. Foram as reivindicações por melhores salários, melhores condições, menos horas de trabalho, mais vida, menos sobrevivência. É a luta contra um pacote laranja, amorfo e classista, um pacote bafiento, pestilento, do antigamente antigo, dos tempos em que as 8 horas eram possíveis mas distantes.
Nestas coisas há sempre questões interessantes, mesquinhas, é certo, mas reveladoras de uma mentalidade retrógrada, assente na cultura do medo, com preocupações acerca dos trabalhadores que vivem de «roubar os patrões», a cultura do «criador de riqueza», empreendedor, self made man (um selfie), um tipo que é responsável, que olha por si e pelos seus. O lema do pacote é básico. Tão básico que estava escrito, em letras enormes, nos portões de entrada dos campos nazis de extermínio: «O trabalho liberta» (em alemão, claro).
Produtividade, flexibilidade, bancos de horas, mel para os patrões, fel para os trabalhadores.
Nada de muito diferente dos pantanosos e opressores 48 anos a que o 25 de Abril de '74 quase pôs um fim, mas que persiste no tecido económico, nesse totalitarismo da necessidade criada e recriada, vendida e metida pela cabeça adentro dos trabalhadores. Produtividade, flexibilidade, bancos de horas, mel para os patrões, fel para os trabalhadores, precariedade disfarçada de outsourcing, terceirização (do trabalhador, do trabalho, da classe, da pessoa, do indivíduo, do Ser), externalização, exploração... enfim, este pacote laboral, esta «reforma do andar para trás» recordou-me uma obra musical: Prometeo, do compositor italiano, de Veneza, Luigi Nono.
Prometeo, Tragedia dell'ascolto, estreada em 1984 (escrita entre 1981 e 1984) é uma obra que desafia o formato tradicional da ópera. Escrita em colaboração com o filósofo Massimo Cacciari, sem enredo linear, sem cenário convencional ou personagens, a obra é alicerçada na arquitetura sonora e na montagem de textos de Ésquilo, Walter Benjamin, Rainer Maria Rilke, Hölderlin e Hesíodo.
A obra nasce num período em que Luigi Nono (comunista militante do PCI) meditava sobre a contradição entre um futuro tacanho e sombrio e as lutas heroicas do passado, uma atitude a que designou de «nostalgia pelo futuro». O objectivo de Prometeo não é narrar o mito grego do titã que roubou o fogo, mas sim utilizar Prometeo como metáfora para o inconformismo e a vontade e desejo de conhecimento. Esta «tragédia da escuta» (assente na audição, na introspecção e na quase ausência de visualidade) questiona certezas e considera a verdade não como absoluta mas sim como um eco infinito de vozes e perspectivas ao longo da História.
É uma peça dividida em várias ilhas ou cantatas. A música depende do posicionamento espacial dos músicos e da live electronics. Na estreia da obra, na Igreja de San Lorenzo, em Veneza, o arquiteto Renzo Piano projectou uma estrutura de madeira, Arca, no interior da igreja para explorar a reverberação e a projecção sonora.
Com este pacote laboral, o governo, ao contrário de Luigi Nono, pratica a mais tradicional das formas de nostalgia: a do passado. Quanto à Greve Geral, é um eco infinito de vozes que percorre o espaço e o tempo, resistindo à economia que mata e tentando criar um Bem Estar em Liberdade e Igualdade. Algo que essa nostalgia pelo futuro, a Internacional, aspira a concretizar.
Rui Peralta
Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.
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