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Lula venceu. E agora?

Lula venceu. E agora?

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, veio acompanhada de dois marcos. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar virou a eleição presidencial. E a abstenção foi a menor em uma eleição presidencial desde 2006. Aos 80 anos, Lula conseguiu algo que parecia improvável e levou às urnas cerca de 3 milhões de eleitores a mais do que há três semanas.

Vamos aos números. Ontem, 30,5 milhões de pessoas deixaram de votar (19,2% do eleitorado), contra 33,4 milhões (21,1%) em 4 de outubro. Ao todo, 128,2 milhões de eleitores foram às urnas. O crescimento favoreceu Lula, que saltou de 53,9 milhões para mais de 64 milhões de votos, um ganho de cerca de 10 milhões. Flávio Bolsonaro passou de 56,1 milhões para 59,8 milhões, um aumento de cerca de 3,7 milhões. Somados, os dois ganharam quase 14 milhões de votos, entre os 9,3 milhões que haviam ido para outros candidatos e os eleitores que voltaram às urnas, e a maior parte ficou com Lula. Ele melhorou seu desempenho em relação a Flávio em quase 97% dos municípios do país e virou o resultado em 211 cidades, enquanto Flávio virou em apenas uma.

Somados, os dois ganharam quase 14 milhões de votos, entre os 9,3 milhões que haviam ido para outros candidatos e os eleitores que voltaram às urnas, e a maior parte ficou com Lula.

Os números mostram um movimento que as pesquisas não captaram. Na véspera da eleição, o Datafolha registrava 51% dos votos válidos para Flávio e 49% para Lula. A Quaest trazia o mesmo resultado, e a AtlasIntel apontava 50,8% para Flávio e 49,2% para Lula. Lula terminou com 51,77%, quase três pontos acima do que os institutos indicavam, no limite ou um pouco além da margem de erro, e venceu por mais de 4 milhões de votos uma disputa que as pesquisas tratavam como empate técnico. Entender essa discrepância é uma das tarefas dos próximos dias.

Mas há uma pergunta mais urgente: o que Lula e o PT farão para construir um sucessor? Dois nomes ganharam projeção ao longo da campanha: Camilo Santana, senador pelo Ceará e coordenador da campanha no segundo turno, e Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí. Há, porém, um caminho menos óbvio e talvez mais promissor. Lula poderia deixar o cargo na metade do mandato e passar a Presidência ao vice, Geraldo Alckmin, do PSB.

Isso seria benéfico por três motivos. O primeiro é a governabilidade. Com a trajetória no PSDB, Alckmin teria mais trânsito num Congresso eleito à direita e com forte presença da extrema direita. O segundo é a própria sucessão no campo progressista. Com Alckmin na Presidência, o PSB ganharia projeção nacional e capilaridade, e poderia se apresentar como alternativa para 2030, numa eleição que deve voltar a ter na disputa um projeto bolsonarista com histórico golpista.

O terceiro motivo seria ajudar a romper a divisão do eleitorado entre petismo e antipetismo. Como mostram os cientistas políticos David Samuels e Cesar Zucco no excelente livro Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans (2018), essa clivagem estrutura o comportamento do eleitor brasileiro desde os anos 2000, e boa parte dos brasileiros se define em relação ao PT, a favor ou contra. Um PSB fortalecido, à frente do governo, poderia oferecer uma terceira referência e mudar esse padrão.

A recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar o resultado confirma, mais uma vez, que se trata de um movimento de extrema-direita que não respeita as regras democráticas.

Até lá, seria importante que surgisse uma alternativa na direita democrática. Não sei se o Missão, partido recém-criado a partir do MBL, pode ocupar esse espaço. Renan Santos, seu líder, tem dito que não vai mais disputar a direita com o bolsonarismo, mas erra ao tratar o bolsonarismo como se fosse direita. A recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar o resultado confirma, mais uma vez, que se trata de um movimento de extrema-direita que não respeita as regras democráticas. Ontem à noite, ele disse ser «impossível reconhecer o resultado» e anunciou que vai pedir a anulação do pleito, usando como pretexto a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou a votação, mesmo tendo perdido por mais de 4 milhões de votos e mesmo que sua própria campanha também tivesse pedido mais tempo de votação.

O bolsonarismo precisa ser isolado e isso exige que todos os campos democráticos, da esquerda à direita, estejam fortalecidos.

Beatriz Rey

Beatriz Rey

Doutorada em Ciência Política pela Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, e investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

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