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La Fête de la musique e a pálida inquietação europeia

La Fête de la musique e a pálida inquietação europeia

O 21 de Junho em França é sinónimo da Fête de la Musique, uma das grandes festas anuais do país de Proudhon (e de outros franceses, claro, mas tenho um gosto particular por Proudhon). A data do Dia Europeu da Música é celebrada em França de um modo único: à grande e à francesa.

Trata-se de um festival de rua (e a rua é o alicerce da democracia), com concertos de todos os géneros musicais, em avenidas, quarteirões, realizado anualmente, desde 1982, durante o governo de esquerda de François Mitterrand. A ideia central deste festival é a de que a música pertence a todas e a todos nós. Jack Lang, o ministro da cultura de então, referiu que «todos são livres de expressarem através do seu instrumento musical preferido, a sua alegria com o regresso do Verão».

É um dia inclusivo, em que todos os que vierem por bem são bem-vindos (como cantava o Zeca), todos podem participar e que transporta uma forte e indescritível dimensão intercultural.

Quarenta e quatro anos depois, mais de 18 mil concertos podem ser vistos em todo o país, nesta data, atraindo milhões de pessoas (mais de 10 milhões de pessoas e 5 milhões de artistas, o que equivale a quase metade da população francesa). Uma festa que não tem um fundo nacional para o efeito, onde qualquer um pode organizar concertos (seja uma instituição ou associação cultural, clube recreativo, poder local, bares, cafés, restaurantes, um miúdo com uma guitarra nas traseiras do prédio ou um DJ) e onde os músicos actuam sem pagamento.

É um dia inclusivo, em que todos os que vierem por bem são bem-vindos (como cantava o Zeca), todos podem participar e que transporta uma forte e indescritível dimensão intercultural. Uma grande celebração sem interesses comerciais. Em teoria, esta grande celebração participativa e inclusiva poderia fazer com que a Fête de La Musique fosse também recriada noutros países. Mas não. Limita-se a algumas actividades organizadas por instituições culturais (em Lisboa, foi assinalado o dia europeu da música, pela Orquestra da Gulbenkian, o que já não é mau, mas não passa de um lanche perante a grande festa) e geralmente pelos institutos culturais franceses).

Portanto, porque não pensar numa grande festa Europeia da Música, um espaço inclusivo e participativo? Tirando a degradante e alienante sanita que se designa por Eurovisão, não existe, à dimensão europeia, tal celebração da democracia (porque é disso que se trata: rua, inclusão, participação). Imagine-se 450 milhões de europeus nas ruas, fazendo e ouvindo música...

Porque não pensar numa grande festa Europeia da Música, um espaço inclusivo e participativo?

Mas a Europa não é só festa, infelizmente. Os nossos velhos (e falsos, muito falsos, de uma falsidade parasitária que impôs o seu veneno na estrutura europeia) aliados, os EUA, estão a promover organizações autoritárias europeias cujo objectivo é minar a coesão da UE e as conquistas até agora alcançadas, através do financiamento da extrema-direita europeia. O dinheiro de milhões de contribuintes estado-unidenses é canalizado para financiar estas organizações anti-democráticas, nacionalistas e os mais diversos grupos e movimentos regressivos e anti-europeus.

Parece que a resistência (agora mais «finamente» designada por resiliência) democrática europeia vai andar a pedir esmola à Comissão Europeia, que por sua vez parece ter esgotado a caixa das esmolas.

Desta forma os nossos tóxicos aliados estado-unidenses juntam-se a uma lista extensa de regimes autoritários como a Rússia, a China, Marrocos, Israel e outros para desestabilizar a UE. Mais grave, no entanto, é a forma displicente com que os governos europeus reagem a este facto.

Muito pouco ou quase nada é feito para contrariar esta ingerência nas democracias europeias. Pelo contrário. Parece que a resistência (agora mais «finamente» designada por resiliência) democrática europeia vai andar a pedir esmola à Comissão Europeia, que por sua vez parece ter esgotado a caixa das esmolas e não aparenta ter muita vontade de aborrecer a seita de Trump e seus muchachos de Buenos Aires a Pequim. No ar fica a inquietação.

E para terminar: Deslarrrguem a Arrábida!
Privatizar praias? Não bastavam as negociatas do costume, a destruição do SNS para entregar os restos aos amigos (que já não se contentam com os laboratórios de analises e clínicas dentárias) ou com a CP, a tentação da Caixa Geral de Depósitos e as aventuras de Tintim na TAP, temos agora a inquietante privatização das praias. Vou aqui deixar, concluindo, este extracto dos Cadernos de Lanzarote, de José Saramago:

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago - "Cadernos de Lanzarote" - Diário III - pag. 148, 1995

  • O autor escreve sem usar o Acordo Ortográfico.

Rui Peralta

Rui Peralta

Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.

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