Saltar para o conteúdo
22.05.2026 Carlos Kangoma (Lucy) Política Sociedade Opinião

Habitação — Direito ou privilégio?

Habitação — Direito ou privilégio?

Enquanto continua a ser feita a limpeza das casas demolidas no bairro do Talude, prevalece uma triste realidade cada vez mais acentuada em Portugal: habitação digna não é um direito garantido para todos os cidadãos em território português.

Poderia até ser considerado um problema de classes. Podíamos olhar para este fenómeno como um problema específico de certas pessoas e comunidades, mas a realidade é que a questão da habitação, neste momento, é transversal e afecta desde as pessoas em situação mais precária até à classe média em Portugal.

Desde o momento em que o país assentou a economia no turismo, o custo de vida para o cidadão e comum trabalhador passou de sobrevivência para insustentável, devido à inércia governamental no que toca a regulamentação do mercado imobiliário e ao desenvolvimento de uma economia paralela dos alojamentos locais e rendas de curta duração. Em função disto, e pela constante subida de preços que não é acompanhada pelo aumento dos salários, muitas pessoas foram atiradas para situações precárias, outras para casas autoconstruídas. E daqui resulta o grande aumento dos «bairros de lata», uma realidade comum nos anos 80/90.

Nessa altura, o objectivo, durante as campanhas eleitorais, era arranjar soluções para as pessoas. Nos últimos anos, existe uma abordagem oposta por parte de certos autarcas que alinham com os ideais de direita e extrema-direita, maximizando lucros acima da dignidade humana, efectuando despejos e demolições em números assombrosos. Como, aliás, pode constatar-se nos editais da Câmara de Loures: em três anos foram feitos 700 despejos/demolições (número oficial) sem soluções sustentáveis a longo prazo.

Entre rendas médias na ordem dos 1450€ e com ordenados mínimos de 920€, fora as comodidades básicas, como água e electricidade, torna-se impossível sobreviver. E, enquanto não forem tomadas medidas concretas que possam ajudar os cidadãos no acesso à habitação digna, o retrocesso à década de 90 será um dado adquirido.

  • O autor escreve sem Acordo Ortográfico.

Carlos Kangoma (Lucy)

Carlos Kangoma (Lucy)

Ativista e músico. Faz parte do coletivo Vida Justa.

Newsletter

progressistas.pt

Newsletter

«Artigos. Opiniões. Novas ideias. Crónicas. Envia-nos as tuas.»
info@progressistas.pt

Artigos Relacionados

O silêncio sobre a pornografia

Não podemos deixar de refletir sobre as condições de produção da pornografia, que não raras vezes envolvem situações de coação e exploração; temos também de considerar as representações dominantes na pornografia; por último, devemos problematizar os impactos potenciais do consumo e da exposição repetida a estas imagens, discursos e representações.

17.07.2026 Maria João Faustino Opinião

Casa-teatro

As casas-teatro são perigosas, porque são dissidentes, não-normativas, alternativas, ambíguas, múltiplas, causam desconforto, questionam narrativas oficiais, e pior, fazem as pessoas sentir. Elas não operam apenas no plano da lógica e não pretendem nenhuma verdade absoluta. São um acontecimento colectivo.

09.07.2026 Sara Carinhas Opinião

A importância da descolonização mental

Embora se tenha libertado a população da ditadura, mantém-se um cordão umbilical do saudosismo imperialista, uma concepção social dos «heróis-do-mar», conquistadores expansionistas que levaram a civilização ocidental e o cristianismo ao longo do globo. Algo que, imediatamente na sua premissa, desumaniza os povos que foram invadidos, violentados, escravizados e vendidos como mercadoria durante o período dos «descobrimentos» e comércio transatlântico de escravos.

01.07.2026 Carlos Kangoma (Lucy) Opinião