Saltar para o conteúdo
23.06.2026 Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor Política Sociedade Ambiente Opinião

Esta praia não é para a gandaia: Arrábida, Comporta e Algarve

Esta praia não é para a gandaia: Arrábida, Comporta e Algarve

A privatização de cinco praias da Arrábida recorrendo a um subterfúgio legal anterior à constituição, a de alguns acessos na Comporta recorrendo a seguranças ou de outros, discretamente em Albufeira, é uma consequência natural do proxenetismo dos espaços comuns pelos consecutivos governos portugueses das últimas décadas e prossegue o contínuo desmantelar de todos os braços do estado social.

A comodificação dos espaços públicos, cujo usufruto é, não só aberto, como não sujeito à mediação através do consumo mínimo obrigatório, como nos espaços privados, tem vindo a acontecer nas zonas verdes urbanas, onde as reuniões não são já espontâneas e centradas nas afectividades humanas, mas à mesa do café.

O mesmo aconteceu com as praias, onde aceitamos passivamente a privatização de uma percentagem de até 30% do areal, sentindo como uma vitória pírrica, tão pírrica, o direito de colocar os chapéus e as toalhas em frente à zona concessionada.

Há, sobretudo no Algarve e particularmente em Albufeira, um número de cafés e restaurantes instalados no areal com a denominação legal de apoio de praia, quando na realidade são apenas uma variação das habituais PPP, tornando o cidadão duplamente pagador, através dos impostos e do consumo, se quiser usufruir de um espaço público explorado por privados.

Seja na Arrábida ou na Comporta, a relação entre a privatização de uma parte do areal e a privatização de todo o areal ou do seu acesso, redundando no mesmo, é tão gritantemente óbvia como o facto do Algarve ser há décadas o oráculo do que está por vir nas outras zonas do país, então livres da pressão turística a que o sul do país se verga voluntariosamente como se fosse a única alternativa e em muitos casos, ainda pior, defendendo com um sentimento de orgulho bairrista as razões da sua própria autodestruição como se fosse o caminho para a salvação.

O Algarve [é] há décadas o oráculo do que está por vir nas outras zonas do país.

Tal como o futebol, um desporto nascido das classes populares para as classes populares e cada vez mais cooptado pelas elites, também as praias estão cada vez mais próximas de um Rock in Rio a dois tempos, o do shopping center em modo feira popularucha e o outro, o da Zona VIP onde comer um croquete se torna um crime de lesa majestade.

Desde que vim morar para o Algarve, encontro, além das evidentes, poucas razões de satisfação em habitar o misto desesperante de Las Vegas e Disneylândia em que a região há muito se tornou. Mas uma delas foram as várias vezes em que o Hotel Vila Joya decidiu unilateralmente vedar o acesso à praia do Xiringuito em Albufeira e encontrou, invariavelmente, a vedação cortada, depois de a autarquia se demitir de agir sobre o assunto.

Apesar disso, existem outros locais onde situações semelhantes acontecem e às quais as autarquias locais preferem fechar os olhos e perante as quais a sociedade civil não age.

Tal como o futebol, também as praias estão cada vez mais próximas de um Rock in Rio a dois tempos

Acções judiciais ou civis, como manifestações, são uma parte importante da resistência e não devem ser desconsideradas, mas ao falharem todos os mecanismos institucionais não basta abraçar árvores quando os bulldozers as querem derrubar, por vezes é preciso encher os tanques de combustível com açúcar, como nas acções da Earth First e exercer o direito da desobediência civil, porque já não se trata de nada nos ser dado e tudo ter de ser conquistado.

Ao falharem todos os mecanismos institucionais não basta abraçar árvores quando os bulldozers as querem derrubar.

Trata-se de sairmos invariavelmente a perder frente a quem tem poder financeiro para contornar as leis em mais uma confirmação de que capitalismo e democracia são realidades profundamente contraditórias.

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Escritor, tradutor e editor da Traça Edições.

Newsletter

progressistas.pt

Newsletter

«Artigos. Opiniões. Novas ideias. Crónicas. Envia-nos as tuas.»
info@progressistas.pt

Artigos Relacionados

Um Mundial feudal num relvado sempre inclinado

Livre das leis regulatórias mais restritas da Europa, à FIFA não bastou atribuir um fictício e encomendado prémio da paz a Donald - aproveita a competição para aplicar a lógica tarifária presidencial e, ao mesmo tempo, aplacar a sua ira, adoptando a mesma abordagem da Super Bowl e controlando também a revenda dos bilhetes, com 30% de comissão cobrada tanto ao vendedor como ao comprador.

16.06.2026 Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor Opinião