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Ceuta: Sánchez está errado - A empatia é obrigatória. Os tratados é que são opcionais
Foram vários os migrantes que se recusaram a falar com os jornalistas europeus que se deslocaram a Ceuta para noticiar a crise humanitária que levou dezenas de milhares de pessoas a fazer a travessia a nado a partir de Marrocos. A sua recusa era acompanhada do gesto em que o polegar contorna a garganta, imitando uma faca.
Chamar crise migratória ao que aconteceu é mera engenharia linguística com o fim de desumanizar cada uma das pessoas que chegaram a Ceuta. Da mesma forma que apelidar de downsizing os despedimentos colectivos coloca o foco sobre as necessidades da empresa, remetendo os trabalhadores para a categoria de máquinas, também o termo crise humanitária coloca a ênfase na questão fronteiriça e não na humana.
Chamar crise migratória ao que aconteceu é mera engenharia linguística com o fim de desumanizar cada uma das pessoas que chegaram a Ceuta.
Sobretudo quando consideramos Ceuta como um território colonizado, geograficamente pertencente ao continente africano com o qual não possui barreiras naturais e um resquício dos descobrimentos portugueses, enfatizar a questão fronteiriça torna-se ainda mais absurdo, ainda por cima vindo de um político que tem criticado Israel e reproduz agora a sua metodologia.
Nesta situação, como em todas as outras que envolvem migração por toda a Europa, as discussões centram-se invariavelmente na geopolítica, o que conduz à inevitável instrumentalização de vidas humanas para servir tanto esquerda, direita, centro, críticos e apoiantes de Trump, de Sánchez e de Marrocos, remetendo o assunto para as habituais bolhas onde não se considera o ponto fulcral: o que vai acontecer às vidas das pessoas assim que desaparecerem do centro mediático?
O eurocentrismo da discussão aceita o problema como resolvido a partir do momento em que todas as pessoas regressam a Marrocos, sem qualquer consideração pelo seu país de proveniência ou situação.
O eurocentrismo da discussão aceita o problema como resolvido a partir do momento em que todas as pessoas regressam a Marrocos, sem qualquer consideração pelo seu país de proveniência ou situação.
Sánchez colocou-se assim a si mesmo numa posição análoga à de Trump na sua primeira legislatura, quando forçou milhares de pessoas da América Latina a regressar ao México, independentemente da sua situação ou origem.
Também como Trump, Sánchez prepara a sua versão aquática da Grande Muralha do México, o que obrigará as pessoas a actuar de forma ainda mais desesperada.
A belicização da linguagem com termos como invasão, ataque e ameaça ao estilo de vida europeu é um sucedâneo mais suave da Teoria da Grande Substituição e visa gerar o mesmo medo sobre o qual a extrema-direita se funda e granjear apoio das massas através da gramática de guerra que Robert Fisk tão bem soube expor.
Nisto, como em tudo o resto, o caminho do meio é desconsiderado.
Existe algo entre as fronteiras encerradas e as fronteiras escancaradas ou a flutuação entre ambas de acordo com as necessidades económicas, porque tanto as fronteiras como os mercados são formas de organização que visam manter a hierarquização e o sistema de castas onde as mesmas assentam.
Essa solução não chegará sem pressão popular - basta considerar Lampedusa e Gaza - para que seja articulada entre todas as partes, porque o acelerar do ecocídio tem ramificações imediatas, primeiro nos mais pobres dos países mais pobres e depois nos mais pobres dos países mais ricos, que levarão à repetição de situações destas.
Sánchez está errado. Não são os tratados que são obrigatórios e a empatia e a solidariedade opcionais. É o oposto.
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