«Mesmo a noite mais escura acabará e o sol nascerá»Vitor Hugo
A morte que vamos vivendo
Mais um dia na aldeia, é o que diz um certo amigo quando pergunto se está tudo bem. Uma aldeia onde gente se mata todos os dias pelos mais variados motivos. A morte que é notícia; quer nos dias santos, quer nos outros todos, profanos. Estou farto, cansado de ver nos canais televisivos, que pululam em quotidianos, os analistas, os superespecialistas, quase orgásmicos, da morte. Comentar a morte em horário mais que nobre deve subir as audiências das emissoras e de seus novos profetas e, portanto, a morte é uma mais-valia; aquela que está em consonância com o capital; a desgraça que se serve quente e que, no segundo seguinte, já está fria, podre, com prazo de validade vencido.
No fundo, a morte – através das guerras, dos incêndios, do naufrágio ao largo da costa; ou de alguém que resolve fazer bowling numa qualquer rua da Alemanha, onde os pinos são pessoas na sua caminhada de inocências, ou outras – é o leitmotiv para horas incansáveis de análises, mapas, gráficos ou outra treta qualquer. A morte é a pop star que nunca sai de moda; sempre a bombar nas notícias ou no eco das redes antissociais. É celebrada como um feito desportivo; a melhor defesa do Vozinha no Campeonato do Mundo de futebol não é tão exaustivamente discutida como os novos sistemas de defesa adquiridos pela Ucrânia; sabemos tudo sobre essa maquinaria pesada, sobre o parafuso xis, ou sobre a velocidade de um míssil na sua velocidade de cruzeiro e que, dividida pelo quadrado da hipotenusa, ou algo do género, pode perfurar uma parede de concreto – e o que fará então com corpos humanos.
No fundo, a morte (...) é o leitmotiv para horas incansáveis de análises, mapas, gráficos ou outra treta qualquer. A morte é a pop star que nunca sai de moda; sempre a bombar nas notícias ou no eco das redes antissociais. É celebrada como um feito desportivo; a melhor defesa do Vozinha no Campeonato do Mundo de futebol não é tão exaustivamente discutida como os novos sistemas de defesa adquiridos pela Ucrânia; sabemos tudo sobre essa maquinaria pesada, sobre o parafuso xis, ou sobre a velocidade de um míssil na sua velocidade de cruzeiro e que, dividida pelo quadrado da hipotenusa, ou algo do género, pode perfurar uma parede de concreto – e o que fará então com corpos humanos.
A morte tem mais estatuto do que a vida sem interesse de uma Kardashian, destinada às tantas cabeças vazias que não têm vidas próprias. A morte já não é antiquada sequer na sua indumentária, pois a sua tradicional túnica escura, com um capuz grande escondendo o rosto esquelético, além da foice que ceifa os campos de pessoas prontas para serem colhidas, foi substituída. Agora, a roupa é a mais empampanante; dar nas vistas é mais importante que ser a razão; e a foice talvez possa ser chamada do novo verbo «foi-se»; ou seja, de algo que desapareceu, acabou ou partiu.
A morte domina as notícias, mais que a educação, a saúde, o CR7, ou mesmo os discursos do atual presidente dos EUA – que vende, em cada linha, vários tipos de violência, mas que, ironicamente, sobreviveu a um atentado, que serviu mais para alimentar o espetáculo do que para abrir qualquer reflexão; competência mesmo só a do facilitismo com que se compram armas como hambúrgueres. Ambos matam, a diferença está apenas na velocidade do disparo.
Mesmo no futebol, o que nos salta à vista não é tanto a mais recente conquista de um campeonato; esta é efémera, tão passageira como uma mini bem gelada que se esgota num gole. Mais importante é a polémica por terem falhado o primeiro jogo do play-off, que consome horas e horas de infrutíferas discussões, e que assistimos, sim, com grandes perdas de descanso e de saudável humor; de convívio com a família e amigos; tempo de qualidade que vão à vida ou à morte.
Já não celebramos a vida; já não nos espantamos com a exuberância da natureza real, mas sim com aquela exibida a Technicolor, filtros de cores vivas de uma Hollywood que carregamos desde o momento em que despertamos até aquele do sono. Na verdade, despertar e sono já não guardam o mesmo sentido.
Mais um dia na aldeia, diz um certo amigo que vota com a legitimidade que a Democracia nos oferece, no senhor (com «s» minúsculo, de propósito) Desventura, sinónimo de infelicidade, infortúnio e desgraça, como nos diz o velho e conhecido pai dos burros – o dicionário. O amigo vota com a legitimidade da boca cheia, quando só defende os imigrantes de «bem» que vieram para contribuir, para somar, desde que esqueçam as suas origens e os seus costumes e que sejam impolutos no comportamento, tal e qual a sociedade que os acolheu na sua perfeição.
Mais um dia na aldeia que, segundo a voz de muitos, da porta ao lado, tem um amigo preto de alma branca. Mais um dia na aldeia, que defende aquela mulher com unhas e dentes, pois ela trabalha como um homem, mesmo ganhando bem menos; e, por isso, merece ser valorizada aos quatro ventos.
Mais um dia na aldeia, diz um certo amigo já no terceiro ou nono copo, já nem sei, ou no final de mais uma carteira de cigarros na terra dos caubóis, aqueles que montam em touro brabo e cospem fumo para o chão. Mais um dia no velho Oeste, pelas terras do Oriente Médio; mais um dia normal num qualquer massacre em escola dos Estados Desunidos da América; dia de armas e obesidades – o fast food está em todo o lado. Mais um dia normal do amigo americano que pisa no que ainda sobrevive em Gaza.
Mais um dia na aldeia; não aquela que conheci quando era criança. A aldeia da comunidade, dos povos originários; a aldeia da minha mãe, da sua mãe, e de todas as mães antes dela. A aldeia da comunhão, a aldeia da propriedade de um que é a mesma aldeia da propriedade de todos. A aldeia da natureza do ar, da água, do fogo, da terra; pois que todos somos moldados nestes quatro elementos. A aldeia da vida, que é irmã da morte sem dramas.
Mais um dia na aldeia, diz um certo amigo já no terceiro ou nono copo, já nem sei, ou no final de mais uma carteira de cigarros na terra dos caubóis, aqueles que montam em touro brabo e cospem fumo para o chão. Mais um dia no velho Oeste, pelas terras do Oriente Médio; mais um dia normal num qualquer massacre em escola dos Estados Desunidos da América; dia de armas e obesidades – o fast food está em todo o lado. Mais um dia normal do amigo americano que pisa no que ainda sobrevive em Gaza. Dia de festa e de espetáculo que nunca apaga as luzes, pois que o sol rebrilha constantemente nas mãos portáteis da solidão. Mais um dia na aldeia, digo eu a um certo amigo; um dia em contagem regressiva para o fim. Este relógio não pode ser mais desligado.
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