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22.05.2026 Susana Moreira Marques Cultura Poesia Sociedade Opinião

1976-2026

1976-2026

Eu sou a constituição.

O meu corpo é a constituição.

A flexibilidade dele, o meu porte, é a constituição.

Os gestos que faço logo pela manhã — é a constituição.

E os que faço ao deitar — também é a constituição.

O meu cabelo, solto, longo, que corto em pedaços pequenos quando corto, é a constituição.

Quando saio de casa e ando na rua, olhem, eu sou a constituição.

Quando falo, e as minhas palavras revelam tanto de mim, ainda que escondam algumas coisas, é

a constituição que também fala.

Nos momentos mais íntimos, sou a constituição.

Quando me irrito, me odeio, quando me queixo, quando vocifero, sou a constituição.

Quando amo, sou a constituição.

Quando amo mais ainda — a constituição fez isso.

Quando me indigno, quando mostro coragem, quando, enfim, gosto de mim — sou a constituição.

Sou esta coisa que não compreendo até ao fim, como não compreendo a maior parte das outras

pessoas. Sou a constituição.

Todos os artigos da constituição fazem parte de mim, como os órgãos, as veias, o batimento de

um coração, ainda que nunca pense neles.

As memórias, que ficam vagas, e outras que em seu lugar se tornam mais nítidas, são a memória

da constituição.

Se posso dizer um eu, é a constituição.

Se sei exactamente o que é um eu, como deverá sentir-se, mesmo quando não me sinto

completa, é a constituição.

O meu desejo de ser tudo o que posso realizar é a constituição. A minha insatisfação talvez não

fosse assim se não fosse a constituição. A minha frustração, tudo a constituição.

Do sol nascer ao sol se pôr, todos os dias da minha vida, desde que nasci numa maternidade

pública, e a minha mãe perdeu mais sangue do que devia, tenho sido a constituição.

Quando comecei a andar e a falar e a assobiar e a correr para onde quisesse, crescia com a

constituição.

Quando dei o primeiro beijo, ainda que não me lembre nem do beijo nem do rapaz nem pensasse

que seria tão fácil esquecer, era a constituição.

Quando fiz experiências, algumas perigosas e a altas horas da noite, fui a constituição. Quando tive boas notas, quando

surpreendi, quando viajei, quando alguém achou que eu podia até ser um exemplo, fui a

constituição.

Quando superei todas as expectativas do que poderia fazer uma pessoa no meu tempo no meu lugar com a

minha história vinda de gente de aldeias sem nomes importantes, fui a constituição. E quando logrei as expectativas, também.

No entanto, não saberia dizer-vos da constituição uma única linha, como quem recita

perfeitamente um verso.

Não poderia defender cada artigo, nem os mais importantes. Não saberia argumentar, nem

explicar, nem colocar as questões certas. Como não sei defender-me a mim própria. Defender

quem sou. Ou pelo menos a ideia que tenho de quem sou. Defender todo o meu projecto de vida,

que é afinal o projecto da constituição.

Olhem para mim. Com alguns cabelos brancos a aparecerem. Com um certo desafio de quem

quer manter-se jovem, ainda que já não seja. Não vêem a constituição?

Eu sou, neste momento, o caminho mais curto entre os meus pais que envelhecem e as minhas

filhas que crescem. Não é isso uma Constituição?

  • A autora escreve sem o Acordo Ortográfico.

Susana Moreira Marques

Susana Moreira Marques

Escritora e jornalista. Autora dos livros «Agora e na hora da nossa morte», «Terceiro andar sem elevador», «Quanto tempo tem um dia - Experiências de Maternidade» ou «Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro». Coeditora da revista de não-ficção literária Mamute.

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