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Um ensaio sobre a reimaginação da política

Um ensaio sobre a reimaginação da política

A política precisa ser reimaginada. Cheguei a essa conclusão há pouco mais de dois anos, conversando com parlamentares de diferentes países sobre os limites da representação democrática contemporânea. Foi nesse contacto que comecei a perceber que a leitura segundo a qual vivemos uma crise da democracia é, em certa medida, insuficiente, porque obscurece um problema mais profundo: a própria crise da política. A partir dessa inquietação, passei a reler Hannah Arendt de forma quase obsessiva, em busca de ferramentas para entender esse processo.

Os textos dela levaram-me a duas questões sobre as quais tenho pensado. A primeira é o desmantelamento do nosso mundo comum. Pesquisas realizadas em diversos contextos mostram que, mesmo habitando o mesmo território, passamos a viver em universos de referência distintos; ao menor sinal de política, o diálogo cede. Sem entrar nas causas, importa a consequência: quando o mundo comum se desfaz, desfaz-se também o chão sobre o qual a política pode existir.

Sem entrar nas causas, importa a consequência: quando o mundo comum se desfaz, desfaz-se também o chão sobre o qual a política pode existir.

É justamente esse chão que Arendt descreve em A Promessa da Política. Quando a política se manifesta, surge um espaço entre as pessoas — um espaço que, ao mesmo tempo, as reúne e as separa. No centro da política está a ação: é por meio dela, e da fala, que os indivíduos aparecem uns aos outros e constroem um mundo em comum, mesmo permanecendo singularmente distintos. Esse mundo não é dado; ele depende da disposição de agir conjuntamente. Quando essa disposição rareia, o espaço comum se desfaz. E, com ele, a própria política.

A segunda questão diz respeito à ideia, presente em Arendt, de que a ação política já ofereceu às pessoas uma forma de glória terrena. Em A Condição Humana, ela retorna à pólis grega, cuja função incluía multiplicar as oportunidades de conquistar a fama imortal: revelar em atos e palavras uma identidade singular. Na pólis, as pessoas podiam instituir a memória duradoura de suas ações — boas ou más — e inspirar a admiração dos contemporâneos e da posteridade.

Há muito, porém, a política deixou de operar como via para essa glória. Entre outros fatores, Arendt nota como o cristianismo contribuiu para deslocar esse horizonte para a esfera religiosa: a promessa de vida após a morte transferiu a expectativa de realização para além da existência terrena, esvaziando a política desse potencial de reconhecimento perene. Eu não me lembro de um momento em minha vida em que a política cumpriu essa função no Brasil ou em qualquer outro país em que morei até hoje. Esse deslocamento ajuda a explicar por que tantas carreiras políticas hoje se ancoram mais na administração pragmática do poder e na comunicação performática do que em ações capazes de perdurar na memória compartilhada.

Ainda não tenho respostas sobre como começar a reimaginar a política. Tenho, isso sim, projetos de pesquisa em andamento e intervenções com elites políticas e com eleitores programadas. E sigo em observação, tentando perceber se ainda existem espaços em que diferenças possam coexistir sem destruir a possibilidade de um mundo comum.

Sigo em observação, tentando perceber se ainda existem espaços em que diferenças possam coexistir sem destruir a possibilidade de um mundo comum.

No dia 22 de maio, por exemplo, tive a sensação de que o espírito do tempo talvez esteja mudando. Fui ao lançamento do progressistas.pt, uma plataforma que reúne pessoas progressistas de diversas vertentes. Isso ficou claro no evento, inclusive num breve momento entre a deputada do Livre, Filipa Pinto, e a do PS, Eva Cruzeiro. Filipa, num tom leve, sugeriu que Eva cantasse uma canção; Eva sorriu e respondeu que só canta quando o seu trabalho é remunerado.

Houve ali um desacordo de fundo sobre o valor do trabalho artístico e o lugar da gratuidade que foi expresso com respeito e acolhido num espaço comum. Ninguém precisou apagar a diferença para preservar a convivência. Pelo contrário: foi justamente a possibilidade de sustentar o desacordo sem romper o vínculo que conferiu àquele momento um caráter propriamente político. Ficou a sensação de que ainda podem existir espaços em que divergências não conduzam imediatamente à destruição mútua.

Aliás, a própria iniciativa de Filipa de convidar os autores dos textos do portal a partilharem o que os motivou a escrever devolveu-me a imagem da política como via de aparecimento: um lugar onde atos e palavras podem ganhar permanência no mundo comum. Precisamos de políticos e ativistas que se orgulhem do que fazem e vejam no seu trabalho a possibilidade de legar algo que permaneça — não uma “glória” vazia, mas uma presença responsável no mundo que compartilhamos.

Precisamos de políticos e ativistas que se orgulhem do que fazem e vejam no seu trabalho a possibilidade de legar algo que permaneça

Estou escrevendo sobre os progressistas, mas reimaginar a política exige esforços de todos os campos ideológicos que ainda estejam dispostos a construir e habitar um mundo em comum, com todas as tensões que isso implica. Essa talvez seja a tarefa política do nosso tempo.

Beatriz Rey

Beatriz Rey

Doutorada em Ciência Política pela Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, e investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

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