«Artigos. Opiniões. Novas ideias. Crónicas. Envia-nos as tuas.»info@progressistas.pt
Relações líquidas, sentimentos sólidos
Volto a abrir a conversa. Não há nada de novo.
A última mensagem continua exatamente onde a deixei, com a mesma hora por baixo. Mesmo assim, abro. Fecho. Volto a abrir. Como se alguma coisa pudesse aparecer sem que o telemóvel vibrasse. Como se a ausência também se atualizasse.
Esperar por sinais tornou-se um gesto automático. Vejo se respondeu. Vejo se esteve online. Vejo se publicou alguma coisa. Não porque a resposta vá aparecer por insistência, mas porque há uma parte de mim que continua a acreditar que a ausência pode mudar de forma enquanto olho para ela. Perguntar diretamente parece demasiado intenso, demasiado cedo, demasiado revelador. Então aprende-se a procurar nas margens aquilo que ninguém diz no centro.
Muitas relações começam hoje assim. Não com uma declaração, nem sequer com uma conversa clara, mas com pequenas leituras. Uma visualização, um atraso, uma fotografia publicada, uma mensagem mais seca, um corpo que se aproxima num dia e se afasta no outro. Nada disto é necessariamente mentira. Nada disto é necessariamente cruel. A intimidade começa, ainda assim, a criar uma gramática própria, uma que ninguém explicou e que tentamos decifrar.
Perguntar diretamente parece demasiado intenso, demasiado cedo, demasiado revelador. Então aprende-se a procurar nas margens aquilo que ninguém diz no centro.
Chamamos-lhe casual, ou não chamamos nada. Às vezes parece mais fácil. A ausência de nome dá a ilusão de segurança, porque enquanto nada está definido, nada parece suficientemente real para poder acabar. Só que há relações que não são relações e, mesmo assim, ocupam espaço.
Entram na rotina. No pensamento. Na expectativa involuntária. Falar todos os dias faz isso. Receber uma fotografia sem importância nenhuma, de um café, de uma rua, de uma refeição, também faz isso.
Aos poucos, passamos a reconhecer horários, silêncios, expressões. Podemos não saber o que chamar a uma relação, mas o corpo raramente espera pela definição certa para começar a sentir os seus efeitos.
É aqui que a palavra «casual» começa a falhar. Pode descrever a ausência de compromisso, não a ausência de consequência. A confusão nasce quando tratamos a indefinição como neutralidade, como se deixar tudo em aberto fosse uma forma de não afetar ninguém. Só que uma porta entreaberta ocupa espaço. Obriga-nos a ficar ali, a meio. Sem entrar, sem sair, sem saber se ainda vale a pena esperar.
Habituámo-nos a deixar tudo entreaberto. Há sempre outra vida possível à espera noutro separador. E não aprendemos apenas a comprar assim, aprendemos também a desejar assim. Procuramos disponibilidade, pouco atrito, o máximo de prazer com o mínimo de risco. E, quando a dificuldade aparece, imaginamos que talvez exista alguém mais simples logo a seguir.
É por isso que tantas relações ficam suspensas. Não acabam, mas não avançam. Não são assumidas, mas não são exatamente inexistentes. Permanecem num estado intermédio, como produtos deixados no carrinho. Ainda ali, ainda possíveis, mas sem a responsabilidade final da escolha.
Habituámo-nos a deixar tudo entreaberto. Há sempre outra vida possível à espera noutro separador. E não aprendemos apenas a comprar assim, aprendemos também a desejar assim.
Só que pessoas não ficam intactas nesse lugar. Ninguém gosta de se sentir guardado para mais tarde, nem de perceber que ocupa o espaço de uma possibilidade. A lógica do consumo promete-nos que manter opções em aberto é uma forma de liberdade. Mas, nestes vínculos, uma opção aberta pode ser também alguém deixado à espera.
Aproximamo-nos enquanto tudo é simples. Quando a proximidade começa a pedir linguagem, cuidado ou alguma forma de resposta, por vezes recuamos, como se nomear aquilo que aconteceu o tornasse demasiado real.
Ninguém vive uma relação apenas através do nome que lhe dá. Vive-a nos gestos, na repetição, naquilo que passa a esperar sem admitir. É por isso que a ideia de «amor líquido», de Zygmunt Bauman, continua a parecer tão atual.
A liquidez seduz porque promete movimento. Promete a possibilidade de sair antes que doa, de não criar raízes, de não dever explicações maiores do que aquelas que estamos dispostos a dar. Talvez seja aí que a metáfora encontra o seu limite. As relações podem tornar-se líquidas. Os sentimentos, nem sempre.
Ninguém vive uma relação apenas através do nome que lhe dá. Vive-a nos gestos, na repetição, naquilo que passa a esperar sem admitir.
Ninguém precisa de mentir para alguém sair magoado. Às vezes basta que uma pessoa veja liberdade onde a outra começa a sentir incerteza. Basta que uma confunda espaço com distância, e a outra comece a viver essa distância como abandono. Basta que ninguém pergunte, a tempo, o que aquilo significa.
A pergunta não é só «o que éramos?». Às vezes é outra, mais difícil de dizer sem parecer ridículo. Como é que duas pessoas podem viver a mesma proximidade de formas tão diferentes? Como é que se pode desejar, tocar, partilhar pedaços da vida e, ainda assim, não estar a viver a mesma coisa?
Há uma solidão particular nesta forma de intimidade. É estar acompanhado sem saber em que lugar se está.
Não precisamos de regressar a modelos antigos de relação para reconhecer isto. A liberdade importa e a possibilidade de experimentar também. Há beleza em relações que não seguem caminhos previsíveis, em afetos que não cabem nos nomes tradicionais, em formas de intimidade que recusam a posse.
Mas continuamos a colocar tudo em lados opostos: liberdade de um lado, cuidado do outro; desejo de um lado, responsabilidade do outro. Uma relação pode ser livre e ainda assim atenta. Pode ser casual e, ainda assim, honesta. Pode não querer futuro e, ainda assim, ter de responder pelo presente.
Há beleza em relações que não seguem caminhos previsíveis, em afetos que não cabem nos nomes tradicionais, em formas de intimidade que recusam a posse.
Talvez precisemos de menos medo da linguagem. Menos receio de perguntar antes que o silêncio faça o trabalho por nós. Não para definir tudo, nem para transformar cada gesto numa promessa. Apenas para reconhecer que, aquilo que acontece entre duas pessoas, continua a ter consequências, mesmo quando ninguém lhe dá um nome.
Continuo a abrir a conversa. Não porque espere uma resposta, mas porque ainda não sei fechar o que nunca chegou verdadeiramente a terminar.
Aquilo que não se nomeia não desaparece. Cresce no silêncio. Instala-se nas expectativas pequenas, nas mensagens abertas vezes demais. E, quando finalmente ganha forma, já não é só uma dúvida.
É uma coisa sólida dentro de nós.
Júlia M. Tavares
Trabalha em Comunicação Política e escreve entre o ensaio e a memória. Interessa-se por intimidade, corpo, luto e identidade. Tenta perceber o mundo escrevendo sobre ele.
Newsletter
Newsletter
Artigos Relacionados
A festa é um protesto: os artistas estão a reacender o ativismo político?
Será a festa o melhor antídoto para a extrema-direita? Enquanto os movimentos conservadores apertam o seu domínio sobre a política europeia e procuram capturar a cultura, um contraciclo de «Artivistas» emerge para reinspirar a Europa.
Na Volta, era só um minuto
A morte do ciclista Finlay Tarling não nos devia levar apenas a perguntar o que aconteceu naquele trágico instante da Volta a Portugal. Pode ser também um espelho de um país que não exige mais da sua cultura cívica, em que tudo nas estradas é «só um minuto». Jornalista em várias Voltas a Portugal, Duarte Baião dá-nos um minuto de reflexão.
Tirando isto a ideia é boa
Tirando o carácter vago do projeto, a descentralização do poder, a desconcentração de espaços e a segurança de pessoas, tirando isto, a ideia é boa e vale a pena estarmos atentos ao modo como o delfim de Manuel Pizarro vai concretizá-la.