Lazer. É um elemento fundamental para o estabelecimento de uma Cultura da Preguiça. Os momentos de Lazer são aqueles onde transcendemos o trabalho (com uma enorme vontade de o destruir, mas que acaba por ficar no canto do esquecimento relembrado) e a sobrevivência, todas aquelas obrigações rituais e rituais obrigatórios, mesmo aqueles que a noblesse oblige).
Criar tempo livre, ampliar a liberdade no tempo, brincar, fazer por livre escolha. Estas são práticas enraizadas na evolução da espécie e das sociedades, práticas do Bem Estar e do desenvolvimento pessoal que englobam processos de socialização e convívio, envolvimento e participação. Arte, desporto, contacto com a natureza, ou simplesmente nada, ver as nuvens, observar as formigas, pôr binóculos e ampliar o mundo ou tão somente reduzir distâncias e eternizar o ócio.
Eternizar o ócio. Como na música de Django Reinhard. Brincar com a melodia e gozar o ritmo. Rir com a harmonia (com os acordes que acompanham e rompem a melodia). Vamos ouvir, então, o Rhythm Future Quartet na interpretação de Minor Swing, de Django Reinhard.
Minor Swing - Rhythm Future Quartet
A percepção e a valorização dos momentos ociosos ganhou posição considerável na sociedade. O ócio deixou de ser propriedade de uns poucos e passou a ser usufruto dos demais. Dentro deste magma provocado pelo lazer e pela necessidade do ócio, destacam-se as férias, todas as férias, em particular o facto de elas serem pagas. E esta é uma conquista recente, com cerca de um século de História e de muita luta. Em 1872 as pausas anuais foram concedidas na Inglaterra e o direito a férias remuneradas foram sendo estruturados durante o período pós- Primeira Guerra Mundial. Em 1917 a Revolução Soviética consagrou o direito a pausas remuneradas e, em 1936, a OIT aprovou uma série de convenções que generalizaram mundialmente este princípio, sendo nesse ano aprovados na França os 15 dias de férias remuneradas.
Aqui, em Portugal, o direito a férias era coisa que a salazarenta ditadura não queria ouvir falar. Apenas uma pequena minoria tinha direito a férias e consistia em oito dias após cinco anos de trabalho. O 25 de Abril de 1974 trouxe consigo essa primavera do lazer e actualmente gozamos um mínimo de 22 dias úteis por ano. Hoje podemos desfrutar de coisas como Rumba Mama dos Weather Report:
Weather Report - Rumba Mama
A cultura da preguiça, essa práxis valorativa do ócio, de coisas simples e naturais, como o descanso, a desaceleração, o recreio, a cultura, conquista espaço e resiste, na actual sociedade. Perante uma cultura da eficácia, hiperprodutiva do tudo e do nada, opõe-se o Bem Estar, a criatividade, o imaginário. E faz-se jus ao conceito de preguiça. O rótulo de preguiçoso serve para os bicos de diversos paus. Justifica a colonização, a exploração do trabalho, a desigualdade, o patriarcado, o racismo, o capitalismo, os genocídios ambientais, enfim, tudo isto existe porque existem preguiçosos e, obviamente, as pessoas que empreendem têm de recorrer a formas de obrigar os preguiçosos a cumprir com os seus deveres, mesmo que os seus direitos sejam atropelados e atirados para o caixote. Carla Bley e a sua Banda, eis um belo exemplo de preguiça, neste tema que até pode ser ouvido enquanto praticamos o acto de espreguiçar ao sol, na natureza, na cama.
Carla Bley Band - Song Sung Long
Concluindo, a Cultura da Preguiça é a recusa da geral chatice, a recusa Dadaísta de Tristian Tzara. E sabe bem, a preguiça. E ver e ouvir Tzara.
Tristan Tzara - The Song of a Dadaist
Boas férias. Para quem nelas está e para quem as fará.
Jorge Palma é um labirinto libertário, de uma rebeldia que arde sem se consumir. Na novela de Arthur C. Clarke, quando os monges tibetanos chegam ao último nome de deus, as estrelas do céu apagam-se, uma a uma. Com o Jorge Palma, não. Cintilam e crescem.
O verdadeiro drama social é ter as associações de moradores excluídas do conselho municipal de habitação, no qual estão representados os construtores civis, os agentes imobiliários e os proprietários.
Moedas confunde Jorge Palma com Sérgio Godinho como Montenegro citou Saramago a julgar que era Sophia. Um país que começa a confundir os seus poetas, os seus escritores e os seus músicos corre o risco de descobrir demasiado tarde que também está a perder a memória.