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09.07.2026 Rui Peralta Cultura Sociedade Artigo

Por uma cultura da preguiça

Por uma cultura da preguiça

Lazer. É um elemento fundamental para o estabelecimento de uma Cultura da Preguiça. Os momentos de Lazer são aqueles onde transcendemos o trabalho (com uma enorme vontade de o destruir, mas que acaba por ficar no canto do esquecimento relembrado) e a sobrevivência, todas aquelas obrigações rituais e rituais obrigatórios, mesmo aqueles que a noblesse oblige).

Criar tempo livre, ampliar a liberdade no tempo, brincar, fazer por livre escolha. Estas são práticas enraizadas na evolução da espécie e das sociedades, práticas do Bem Estar e do desenvolvimento pessoal que englobam processos de socialização e convívio, envolvimento e participação. Arte, desporto, contacto com a natureza, ou simplesmente nada, ver as nuvens, observar as formigas, pôr binóculos e ampliar o mundo ou tão somente reduzir distâncias e eternizar o ócio.

Eternizar o ócio. Como na música de Django Reinhard. Brincar com a melodia e gozar o ritmo. Rir com a harmonia (com os acordes que acompanham e rompem a melodia). Vamos ouvir, então, o Rhythm Future Quartet na interpretação de Minor Swing, de Django Reinhard.

Minor Swing - Rhythm Future Quartet

A percepção e a valorização dos momentos ociosos ganhou posição considerável na sociedade. O ócio deixou de ser propriedade de uns poucos e passou a ser usufruto dos demais. Dentro deste magma provocado pelo lazer e pela necessidade do ócio, destacam-se as férias, todas as férias, em particular o facto de elas serem pagas. E esta é uma conquista recente, com cerca de um século de História e de muita luta. Em 1872 as pausas anuais foram concedidas na Inglaterra e o direito a férias remuneradas foram sendo estruturados durante o período pós- Primeira Guerra Mundial. Em 1917 a Revolução Soviética consagrou o direito a pausas remuneradas e, em 1936, a OIT aprovou uma série de convenções que generalizaram mundialmente este princípio, sendo nesse ano aprovados na França os 15 dias de férias remuneradas.

Aqui, em Portugal, o direito a férias era coisa que a salazarenta ditadura não queria ouvir falar. Apenas uma pequena minoria tinha direito a férias e consistia em oito dias após cinco anos de trabalho. O 25 de Abril de 1974 trouxe consigo essa primavera do lazer e actualmente gozamos um mínimo de 22 dias úteis por ano. Hoje podemos desfrutar de coisas como Rumba Mama dos Weather Report:

Weather Report - Rumba Mama

A cultura da preguiça, essa práxis valorativa do ócio, de coisas simples e naturais, como o descanso, a desaceleração, o recreio, a cultura, conquista espaço e resiste, na actual sociedade. Perante uma cultura da eficácia, hiperprodutiva do tudo e do nada, opõe-se o Bem Estar, a criatividade, o imaginário. E faz-se jus ao conceito de preguiça. O rótulo de preguiçoso serve para os bicos de diversos paus. Justifica a colonização, a exploração do trabalho, a desigualdade, o patriarcado, o racismo, o capitalismo, os genocídios ambientais, enfim, tudo isto existe porque existem preguiçosos e, obviamente, as pessoas que empreendem têm de recorrer a formas de obrigar os preguiçosos a cumprir com os seus deveres, mesmo que os seus direitos sejam atropelados e atirados para o caixote. Carla Bley e a sua Banda, eis um belo exemplo de preguiça, neste tema que até pode ser ouvido enquanto praticamos o acto de espreguiçar ao sol, na natureza, na cama.

Carla Bley Band - Song Sung Long

Concluindo, a Cultura da Preguiça é a recusa da geral chatice, a recusa Dadaísta de Tristian Tzara. E sabe bem, a preguiça. E ver e ouvir Tzara.

Tristan Tzara - The Song of a Dadaist

Boas férias. Para quem nelas está e para quem as fará.

Rui Peralta

Rui Peralta

Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.

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