Mais uma Moeda, menos uma Volta
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Em 1972, Portugal era assim uma coisa que ainda acreditava que se estendia do Minho a Timor, vivia mergulhado numa guerra em África e na ressaca da primavera marcelista, que iniciara vãs esperanças trituradas rapidamente na antecâmara da repressão. Foi nesse contexto que Jorge Palma publicou The Nine Billion Names of God, baseado num conto de Arthur C. Clarke com o mesmo título. Um single, com dois temas (o que dá o título ao trabalho e, no outro lado, «Come, Morpheus») coloca Jorge Palma no labirinto da música.
A sólida formação musical de Jorge Palma começa cedo, aos seis anos; aos oito realiza a sua primeira audição, no Conservatório Nacional e aos 12 participa no Festival das Juventudes Musicais, naquele ano, em Palma de Maiorca, onde obtém o segundo lugar. Com o aprofundar na adolescência veio a descoberta de sonoridades, ritmos, palavras, Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed tornaram-se referências de peso na sua formação e acrescenta a guitarra ao seu domínio técnico instrumental que obtiveram no piano. Obviamente que com o rock na sua formação veio a afirmação da rebeldia. E daí aos nove trilhões de nomes de deus foi um passo. Primeiro teve uma breve experiência como teclista num grupo de músicos de Santarém, os Black Boys, que tocavam em bares no Algarve. Depois veio o Sindicato, onde era teclista e cantor. Do Sindicato fazia parte o Rão Kyao e outros como o Vítor Mamede e o Edmundo Falé. Com um reportório baseado maioritariamente em covers de bandas americanas e inglesas, o Sindicato cria alguns originais e avança para uma fusão entre Rock e Jazz. Em 1971 publicam o single «Smile», cujo lado B era uma versão do clássico do Rock n' roll Blue Suede Shoes, de Carl Perkins. No mesmo ano o Sindicato fez a sua última aparição na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros.
Em 1972, além da publicação do seu primeiro single sobre os triliões de nomes de deus, conheceu Ary dos Santos, que o convenceu a escrever letras em português e com quem inicia um processo de tomada de posição política. Esta relação com o poeta Ary dos Santos leva Jorge Palma a publicar, em 1973, um EP intitulado «A Última Canção», com quatro temas seus, dois deles com letras de Ary. Nesse mesmo ano, recusa-se a cumprir o serviço militar e a participar da guerra contra a emancipação das colónias portuguesas e parte para a Dinamarca, onde obteve asilo político. Regressa no verão de 1974, após o 25 de Abril, e trabalha como orquestrador e instrumentista, colaborando com diversos músicos portugueses. Em 1975, publica o seu primeiro LP, «Com Uma Viagem na Palma da Mão», com temas compostos durante o seu exílio na Dinamarca e editado pela Valentim de Carvalho. Um trabalho fundamental na música criada em Portugal.
Em 1977 grava o seu segundo LP, o «'Té Já» e até 1981 percorre Espanha, França, Itália e Suíça, onde interpreta (nas ruas e em transportes públicos), Leo Ferré, Brel, Aznavour e música norte-americana. Passa algum tempo em Lisboa e grava o terceiro álbum, «Qualquer Coisa Pá Musica».
Na década de 80 grava o álbum duplo «Acto Contínuo», em 1982 e, dois anos depois, «Asas e Penas». Tem concertos em Portugal, França e Itália e em 1985 grava uma das suas principais obras-primas: «O Lado Errado da Noite».
Reentra no Conservatório Nacional e termina o curso. Em 1986 grava o sétimo álbum, intitulado «Quarto Minguante», e em 1989 edita o delicioso «Bairro do Amor».
E continuando, pelos anos 90 adentro, depois o século XXI, concertos, participações noutros projectos, diálogos permanentes com outros músicos, um aprimorar da rebeldia, um sentir diferente, uma sonoridade própria que nunca deixou de evoluir, de dar respostas inovadoras. Falar, escrever sobre e do trabalho de Jorge Palma é percorrer meio século de História. É recentrar o papel da música e a música na sociedade portuguesa, mas também europeia.
Jorge Palma é um labirinto libertário, de uma rebeldia que arde sem se consumir. Na novela de Arthur C. Clarke os monges tibetanos quando chegam ao último nome de deus as estrelas do céu apagaram-se, uma a uma. Com o Jorge Palma, não. Cintilam e crescem. E hoje é mais uma que por lá brilha.
Foto de capa: José Goulão
Rui Peralta
Nasceu a 5 de Agosto de 1961, no meio de um jogo de cartas, em Alcântara. Depois, até hoje, anda por aí, por aqui, por ali e por lá.
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