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31.07.2026 Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor Política Sociedade Opinião

O CH como inside job e a algoritmização do real

O CH como inside job e a algoritmização do real

A ideia de Audre Lorde ainda se verifica: as ferramentas do mestre não servirão para desmantelar a sua casa. Mas poderão servir para, pelo menos, abalar a estrutura.

O CH é a materialização, invertida e acabada desse conceito.

Não é apenas a vandalização do gabinete de Ventura, todo o partido de André é um inside job de necrófagos a banquetear-se dos restos putrefactos da democracia de Abril, polidamente ressignificada pelo mercado e, por isso, provavelmente o melhor e o pior que poderia ter acontecido à política portuguesa, pela mesma razão. Ao ser um catalisador da derrocada, sê-lo-á também da resposta a essa mesma derrocada proveniente do campo oposto, conduzindo a uma inevitável reconfiguração política, certamente acelerada pelas circunstâncias presentes.

Todo o partido de André é um inside job de necrófagos a banquetear-se dos restos putrefactos da democracia de Abril, polidamente ressignificada pelo mercado.

Quando a própria fundação do partido, a sua ideologia flutuante e o discurso de vendedor de carros usados estão alicerçadas na mentira, torna-se secundário saber se é verdade ter sido alguém do próprio partido a encenar a vandalização do gabinete de André como forma de capturar a atenção mediática, perante o tempo de antena dedicado aos vários casos que Montenegro enfrenta e a problemas reais como os incêndios ou o clima.

A questão principal é que, também fruto da sobreexposição mediática, a fasquia da nossa tolerância à manipulação aumenta com cada nova situação fabricada perante a qual permanecemos passivos, numa colonização perfeita do laissez faire laissez passer dos nossos centros emocionais.

Se é certo que há muito que as instituições públicas pouco mais são do que frontispícios a ocultar uma estrutura apodrecida, sobre a qual as corporações erguem os seus oásis privados, o esvaziamento e a impotência ainda não são totais. Existe alguma capacidade de serem utilizadas como contrapeso da teatralidade venturiana, uma mera continuidade da dos ditadores do séc. XX.

A verdade deixou não só de estabelecer linhas entre todos, mas tornou-se uma variável sujeita a interpretações pessoais, vítima da algoritmização do real.

Nesta recente encenação, nem o objectivo nem a metodologia de André diferem do episódio do refluxo ou dos vários atentados a Trump, uma vez que a verdade deixou não só de estabelecer linhas entre todos, mas tornou-se uma variável sujeita a interpretações pessoais, vítima da algoritmização do real. A situação do gabinete é uma réplica de tantas outras semelhantes ao longo do tempo e que visam o triplo efeito de espalhar o caos, vitimizar e capturar as atenções.

Ultrapassada há muito a possibilidade de agir no plano legal ou ético, o grande objectivo deve ser agora, não só controlar danos, mas de um autoempoderamento orientado para a retaliação, impedindo a extrema-direita de colher os frutos das situações que forja. Com esse fim, está provado que nem a indiferença nem o silêncio, por mais dignos que pareçam, resultam.

O que tem mostrado efeito é subir a fasquia e entrar no combate corpo a corpo, contrariando a cavalgante ineficácia e inocuidade da esquerda, do centro e da sociedade civil.

Mamdani provou-o quando publicou um vídeo acusando Netanyahu de ser um criminoso de guerra, apelando à sua prisão pelo governo federal - uma vez que não tem possibilidade legal de o fazer – e afirmando taxativamente que o político israelita não será acolhido em NY, sem qualquer preocupação com acusações de antissemitismo, que surgiram, previsivelmente, alguns dias depois. Também Sánchez já agiu de forma idêntica.

Ambos, ou qualquer pessoa que afronte o escabroso dramatismo da escandaleira, suscitarão críticas de calculismo político, na tentativa de refrear ou mesmo provocar em retirada. Mas o recurso à estratégia não é uma mácula nas intenções - é uma forma inteligente de conseguir materializá-las.

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Hugo Filipe Lopes aka Cöbramor

Escritor, tradutor e editor da Traça Edições.

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