«Mesmo a noite mais escura acabará e o sol nascerá»Vitor Hugo
Colaboração além da investigação: como podem os cientistas cooperar numa economia comunitária?
A ciência é o maior projeto colaborativo da humanidade. Bancos de dados públicos, revisão por pares, projetos partilhados: tudo são bons exemplos de como o apoio mútuo é o verdadeiro motor da investigação.
No entanto, a transformação deste caldeirão de conhecimento em produtos/serviços segue sempre a via privada e desconectada dos muitos investigadores que contribuíram para a pesquisa, dos trabalhadores que fabricam estas soluções e das comunidades que as utilizam. Concretamente, seguem o modelo de start-ups, cuja dependência inicial de grandes investidores e de lucro rápido e elevado faz com que apenas projetos altamente rentáveis avancem, levando também a que muitas destas soluções venham com preços incomportáveis para quem mais precisa. Não deixa de ser necessário também criticar o modelo público de financiamento da investigação, que negligencia a ciência fundamental, é centralizado e pouco democrático e privilegia projetos de grande escala, esquecendo as comunidades locais.
É da necessidade de superar o modelo investigação pública, produto privado que nasce o novo conceito de cooperativas de pesquisa e desenvolvimento (P&D). As cooperativas são empresas nem públicas, nem privadas, mas daquilo a que se chama o «terceiro setor», caracterizadas pela adesão livre, gestão democrática e distribuição proporcional de lucro, ou seja, mecanismos de colaboração. No caso da P&D, o foco está na união de investigadores, professores, alunos e membros da comunidade interessados em pesquisar s obre tópicos que têm relevância social, mas que não se encaixam num modelo lucrativo de alta expansão. É importante não confundir com o conceito de ciência cidadã, cujo foco é o envolvimento das comunidades na recolha de dados e a educação. As cooperativas de P&D dão o próximo passo: aplicam na esfera económica as boas práticas da colaboração em ciência.
Mas de que forma as cooperativas de P&D são vantajosas face às atuais alternativas?
Primeiro, democratizam a investigação, descentralizando-a e trazendo à participação um leque de membros da comunidade. Isto remete para a segunda grande vantagem: permite que a pesquisa tenha um objetivo claro e de necessidade imediata, respondendo a problemas locais que de outra forma ficariam em segundo plano, por não serem muito lucrativos ou de interesse global. Assim, há um retorno garantido que é independente da capacidade de acesso a tal produto/solução por parte do consumidor.
As cooperativas de P&D democratizam a investigação, descentralizando-a e trazendo à participação um leque de membros da comunidade. Isto remete para a segunda grande vantagem: permite que a pesquisa tenha um objetivo claro e de necessidade imediata, respondendo a problemas locais que de outra forma ficariam em segundo plano, por não serem muito lucrativos ou de interesse global. Assim, há um retorno garantido que é independente da capacidade de acesso a tal produto/solução por parte do consumidor.
Tomemos o seguinte exemplo fictício que tem lugar em Almada, onde o cooperativismo já é histórico: um grupo de agricultores das Terras da Costa quer adotar um cultivo sustentável, mas desconhecem como adaptar o solo e as técnicas existentes. Entram em contacto com investigadores da NOVA-FCT que reconhecem tratar-se de uma ideia importante e criam em conjunto uma cooperativa multissetorial (ou seja, que tem atividades de várias áreas), dedicada a pesquisar boas práticas de cultivo nesta comunidade e a produzir produtos de origem responsável.
No entanto, esbarram no primeiro problema: investimento. Investigadores e comunidades por si só não têm fundos suficientes para financiar infraestruturas e logística. Procuram empréstimos, concursos, mas estas opções são rejeitadas dada a escala limitada do projeto. Então, pensam no conceito base desta iniciativa: a colaboração. Decidem integrar uma confederação que reúne várias cooperativas de agricultores, que funcionam em rede e fornecem apoio para pequenos projetos sustentáveis. Estabelecem parcerias com associações de agricultores que conhecem projetos similares noutros locais e conseguem partilhar experiências passadas. Contactam a autarquia local para procurar um maior envolvimento comunitário e financiamento de pequena escala.
Ultrapassado este desafio, a P&D resultou num volume de conhecimento que permitiu aos agricultores aplicarem a sua ideia com sucesso e começarem o cultivo, mas surge um segundo problema: a sustentabilidade económica do projeto. Os agricultores têm dificuldades em vender e valorizar os alimentos cultivados e a atividade de P&D está sem rumo, limitando o retorno financeiro. A solução passa de novo pela colaboração, mais concretamente pela expansão. Os agricultores, dentro da confederação que integraram, começam a levar os seus alimentos a locais de transformação em outros produtos de valor acrescentado, com a secção de P&D a investigar como os pode melhorar. Também decidem integrar uma cooperativa de consumo (supermercados) onde podem mais facilmente vender em diversas lojas. O modelo prospera e outras comunidades decidem replicá-lo, ampliando a rede e o conhecimento partilhado.
As cooperativas de P&D podem ser uma realidade que valoriza o trabalho dos investigadores, ao mesmo tempo que criam soluções concretas e dinamizam a comunidade. Numa estrutura não isolada, como o atual modelo de investigação pública, produto privado, mas sim multissetorial, que abrange a pesquisa, produção e venda.
As cooperativas de P&D podem ser uma realidade que valoriza o trabalho dos investigadores, ao mesmo tempo que criam soluções concretas e dinamizam a comunidade. Numa estrutura não isolada, como o atual modelo de investigação pública, produto privado, mas sim multissetorial, que abrange a pesquisa, produção e venda. Apesar de existirem casos reais que se regem por princípios similares, como a Open Source Ecology ou comunidades rurais do Quénia, ainda não estão estabelecidos modelos cooperativos sustentáveis e de longo prazo, muito por lutarem por recursos contra start-ups que têm de crescer rápido e a todo o custo.
E assim se estabelece uma economia comunitária, assente no princípio mais belo da ciência: a colaboração.
Martim de Freitas
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