Viva!
No Progressistas.pt acompanhamos os diferentes quadrantes da sociedade, seja em Portugal, seja no plano internacional. A forma como o patriarcado vem exercendo uma opressão histórica, em especial sobre as mulheres, é intolerável, mesmo que não falte quem queira regredir nas importantes conquistas já asseguradas e andar para trás no tempo.
E, poucos dias depois de Sérgio Godinho ter completado 81 anos, vale sempre a pena lembrar o que canta em «Liberdade», no seu terceiro disco, «À Queima-Roupa», editado em 1974:
Aiiiii, só há liberdade a sério / quando houver / A paz, o pão, habitação, saúde, educação.
Mais de 50 anos depois do 25 de Abril, a sabedoria e a atualidade destas palavras não se perdem.
Quando veio para Portugal, há mais de dez anos, o cantautor Luca Argel não tinha planos para ficar, muito menos para desenvolver um percurso artístico. Mas a situação alterou-se e o lusobrasileiro tem construído um trajeto seguro e com enorme criatividade, além de abordar temas complexos e perturbadores na sua obra. Em entrevista a Paulo Jorge Pereira, o compositor aborda questões como o discurso político e, nesse caso, a necessidade imperiosa de dar esperança às pessoas, sobretudo à esquerda.
É preciso também se permitir sonhar mesmo, pedir coisas que parecem impossíveis, sonhar com coisas impossíveis, oferecer para as pessoas mais do que o básico, porque a gente está numa posição de lutar muito só para as coisas não piorarem e ter acesso ao mínimo dos mínimos. Lutarmos só para que as coisas não piorem não é suficiente.
Numa conversa de grande amplitude, Luca Argel critica o despudor dos que tentam tornar os imigrantes nos bodes expiatórios do que existe de errado em Portugal; analisa os cenários das eleições presidenciais de outubro no Brasil, mas também o tema do seu mais recente álbum: os errados ensinamentos transmitidos aos homens e os respetivos reflexos na definição de uma masculinidade tóxica que todos os dias faz vítimas. E não hesita ao escolher o principal problema da atualidade no país:
A habitação é o mais surreal de todos [os problemas em Portugal]. Me espanta muito que essa questão não seja uma fonte de instabilidade política ainda maior para os governos dos últimos dez anos. Faltam até palavras para descrever como é insustentável esta situação e como se roubou mesmo o direito à habitação de pessoas comuns que vivem e trabalham em Portugal.
De Rui Peralta vem uma associação muito a propósito entre música e a reivindicação de autonomia e liberdade. Fala-se sobre as lutas dos povos do Saara contra o cerco a que são sujeitos. Mas também da privatização e exclusão de acesso às praias na Arrábida. E, claro, não pode faltar música: bandas tuaregues e Thelonious Monk. Têm mais em comum do que parece.
Enquanto continuam as lutas dos povos do Saara contra o cerco a que são sujeitos, a limitação de espaço, a colonização, a luta pela afirmação da sua identidade cultural e política, a luta pelo reapropriar da existência, aqui em Portugal, na Arrábida, continuam as ações de protesto contra a privatização e exclusão de acesso a praias e espaços naturais.
Com Rafaela Lacerda, o tema é a interrupção voluntária da gravidez e a ameaça que está a ser desencadeada contra esse direito, num contexto mais global de tentativa de revisionismo e de ameaças ultraconservadoras aos direitos das mulheres. Para a autora, a situação é bem clara:
Nenhuma mulher recorre a este procedimento [o aborto] de ânimo leve. Nenhuma o faz por ser irresponsável, egoísta ou tantas outras coisas que ouço por aí. Antes por falta de condições físicas, psicológicas ou sociais.
No terceiro de uma série de seis ensaios, Osvaldo Alvarenga regressa ao verão de 1988 para falar na queda do Muro de Berlim, em novembro do ano seguinte, e em tudo o que se lhe seguiu. E, neste texto publicado originalmente em 2025, passa da esperança daqueles tempos ao desapontamento da atualidade com os horizontes sombrios que avistamos, seja qual for a direção para onde olhamos.
[Mais de] Trinta anos depois, parece, mais uma vez, sou testemunha de uma reviravolta global. Lembro-me da euforia que sentia nos anos oitenta e penso no desapontamento que sinto hoje: eu também temo o futuro, mas não cultuo o passado. Temo pelas instituições democráticas, pelo direito das minorias, pelo meio ambiente, pelas liberdades. Avançamos tanto no desenvolvimento humano e nos direitos civis, mas falhamos como sociedade. Depois do fim da história, sem pânico nem nostalgia, tateio mais um recomeço.
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