Egoístas nas tendas, polícias de vendas, rentistas nas vivendas e fascistas com agendas
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional. Até hoje, nada de novo.
Em Vejam Bem, Zeca Afonso canta uma praça cheia de gente madura que vê um homem atravessar a noite sozinho e não lhe estende a mão. Nas últimas décadas, a canção tem sido retrato da indiferença perante o sofrimento alheio. Mas, nas últimas semanas, vemos algo de diferente nas praças das cidades. Têm sido cada vez mais as pessoas que, unidas e solidárias, atravessam «a noite de breu» pela defesa coletiva do direito mais básico: uma casa para viver.
A liberdade das pessoas de ocupar o espaço público e discutir soluções em conjunto não tardou a fazer comichão aos que acreditam que a democracia se esgota no voto.
Desde 10 de outubro, centenas de pessoas acamparam na Praça D. João I, no Porto, e depois na Praça do Rossio, em Lisboa. Ao longo da última quinzena, milhares se juntaram a elas. Não ficaram a ver. Saíram às ruas para protestar contra a crise da habitação que Portugal enfrenta e para exigir respostas.
A liberdade das pessoas de ocupar o espaço público e discutir soluções em conjunto não tardou a fazer comichão aos que acreditam que a democracia se esgota no voto. E aos cidadãos que exerciam o seu direito democrático de pressionar os órgãos de poder representativo a solucionar o problema, o Governo escolheu responder com violência.
Num espaço de dez dias, foram três as vezes que a polícia carregou desproporcionalmente sobre pessoas que protestavam pacificamente pelo direito à habitação. Com bastões, cães e balas de borracha, a violência policial que se deu na noite de 25 de outubro foi planeada, foi intencional e foi absolutamente ultrajante. Inaceitável num Estado democrático.
Montenegro esperava que durante o seu mandato a nação se comportasse de forma apática e obediente, como Zeca lamentava. Para o primeiro-ministro, esta deveria ser serena e espectadora de uma democracia com trejeitos de outros tempos.
Com bastões, cães e balas de borracha, a violência policial que se deu na noite de 25 de outubro foi planeada, foi intencional e foi absolutamente ultrajante. Inaceitável num Estado democrático.
A 25 de Abril de 2026, o Presidente António José Seguro disse: «Não sejam espectadores da democracia. Sejam protagonistas. Não se resignem. Não se calem. Não desistam. Cada geração tem o seu teste. Este é o vosso: garantir que a liberdade não enfraquece, não recua, não se perde.» E foi exatamente isso que fizeram.

No segundo trimestre deste ano o preço das casas subiu 16,5% face ao ano anterior. As rendas dos novos contratos subiram 10,2%! A revolta das pessoas é justa. O poder de compra continua a diminuir, os preços das casas atingem recordes máximos e o número de histórias de pessoas em dificuldades multiplicam-se. Apesar disso, o primeiro-ministro segue teimoso e, por questões meramente egoísticas, promete levar as suas políticas de habitação «até ao fim». Até ao fim de quem?
Os preços das casas estão absurdos e não param de subir desde que Luís Montenegro tomou posse. E com estas novas alterações à Lei do Arrendamento, são os grandes senhorios e as empresas imobiliárias os que saem beneficiados. É uma proposta impiedosa, que torna mais fácil despejar e mais difícil arrendar. E para o bem do país, precisa de cair.
Os nossos governantes não conhecem nenhum dos tantos jovens trabalhadores qualificados que não conseguem um empréstimo para habitação de 200 mil euros. E muito menos conhecem alguém que já tenha sido forçado a viver numa tenda.
Por isso se protesta em Lisboa e no Porto, mas também em Braga, Coimbra e Faro, com gente de todas as gerações. O problema é que Montenegro e seus ministros não acreditam que esta nova Lei do Arrendamento vá prejudicar as pessoas. Porque a verdade é que não conhecem ninguém que viva as mesmas realidades das pessoas que se juntam nas praças.
Os nossos governantes não conhecem nenhum dos tantos jovens trabalhadores qualificados que não conseguem um empréstimo para habitação de 200 mil euros. Não conhecem nenhum casal que tem de arrendar uma casa a uma renda moderada de 2300€ na capital, com dois salários mínimos e crianças para alimentar. Não conhecem nenhum estudante universitário que não sabe se deve pagar a renda do quarto ou a propina. E muito menos conhecem alguém que já tenha sido forçado a viver numa tenda.
Montenegro não anseia por ouvir a voz do povo porque o seu poder político não pertence ao povo.
As atitudes deste Governo são o resultado do que acontece quando os políticos que elegemos se encontram distantes das realidades das pessoas que deviam servir. Quando a teimosia se sobrepõe à realidade dos factos. Quando o privilégio elimina a empatia.

Montenegro não anseia por ouvir a voz do povo porque o seu poder político não pertence ao povo. Não é a ele que serve. E de nada vale ao povo um governo que sirva para se servir, ou para servir apenas quem já tanto tem.
Na canção de Zeca Afonso, o homem atravessa a noite sozinho porque a praça se limita a ver. Nestas semanas, cada vez mais gente aparece nas praças. Gente madura, mas que se recusa a ser espectadora. Juntam-se, indignam-se e constroem soluções. Estão a fazer o que se espera de uma democracia viva.
Vejam bem! As praças estão cheias de gente madura. Falta que quem lidera o país também o seja.
Nurin Mirzan
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Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional. Até hoje, nada de novo.
Não habitamos por construirmos, pelo contrário, construímos porque somos seres que habitam. Habitar é ter um lugar no mundo. Perder casa, perder esse espaço que habitamos, é ser condenado ao exílio forçado, é ser excluído da mais elementar qualidade de Ser.
A revisão à lei do arrendamento que desceu à especialidade no Parlamento poderá parecer desajustada e desenhada por alguém que não tem a mínima noção de como governar um país; está bem patente para quem esta lei está feita e a quem beneficia — senhorios, fundos imobiliários, grupos económicos detentores de imóveis e todos os que vivem do negócio imobiliário.