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O mandato em branco

O mandato em branco

A uma semana e meia do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, ainda não houve nenhum debate com os dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Tampouco se fala de propostas de políticas públicas na imprensa, que segue dominada por notícias do escândalo do Banco Master e dos embates no Supremo Tribunal Federal (STF). Independentemente de quem for eleito no primeiro ou no segundo turno, teremos um presidente sem mandato, já que o eleitorado terá votado sem saber ao certo, nem minimamente, em qual programa de governo votou.

É esse tipo de situação que a cientista política Susan Stokes tinha em mente quando descreveu o que torna uma eleição um mandato: a campanha precisa revelar, com alguma clareza, o que cada candidato pretende fazer no governo. É essa revelação que permite ao eleitor escolher entre rumos diferentes de políticas públicas, e é essa escolha que autoriza o vencedor a governar segundo o programa anunciado. Stokes chegou a essa formulação estudando o problema oposto: presidentes latino-americanos que prometeram uma coisa na campanha e fizeram outra no poder, rompendo o vínculo entre voto e política pública (o que ela chama de policy switches).

Independentemente de quem for eleito no primeiro ou no segundo turno, teremos um presidente sem mandato, já que o eleitorado terá votado sem saber ao certo, nem minimamente, em qual programa de governo votou.

O que está faltando nesta eleição é o escrutínio das propostas por parte da imprensa. O que os eleitores conhecerão será o que a propaganda eleitoral de rádio e TV mostrar, sem a ponderação crítica que só debates e reportagens oferecem. A culpa é tanto dos candidatos quanto dos jornalistas.

A última tentativa de debate foi conduzida pelo podcast Flow – hoje o maior podcast no Brasil, criado por Igor Coelho, e conhecido por reunir políticos e outras figuras públicas em entrevistas de horas de duração – na última segunda-feira (21 de setembro). Nem Lula nem Flávio Bolsonaro compareceram. Lula estava em Nova York antes de proferir um discurso nas Nações Unidas. Flávio já havia avisado que só participaria dos compromissos de campanha se Lula também participasse, e manteve a palavra: ausente Lula, ausente Flávio.

O que está faltando nesta eleição é o escrutínio das propostas por parte da imprensa. O que os eleitores conhecerão será o que a propaganda eleitoral de rádio e TV mostrar, sem a ponderação crítica que só debates e reportagens oferecem. A culpa é tanto dos candidatos quanto dos jornalistas.

No momento em que escrevo este texto, a Folha de S. Paulo tem como manchete «Ações que somam R$ 14,3 bilhões estão na raiz da influência de Daniel Vorcaro no Judiciário»; o Estado de S. Paulo estampa «Roseann: Fachin precisa derrubar o sigilo do inquérito das fake news; seria o 'fim do mundo' para Moraes?»; e O Globo, um pouco mais antenado às eleições, tem «Campanha de Lula vê dificuldades em conter apoio do Centrão a Flávio no 2.º turno e busca dissidência nos estados».

O governo Lula até tenta pautar algum debate sobre políticas públicas. Na própria segunda-feira, a sua campanha publicou material contra as bets, que viraram o principal motor do endividamento das famílias no Brasil, segundo estudo da FIA Business School e do Ibevar. Entretanto, a imprensa segue mais interessada nos meandros de Daniel Vorcaro e dos ministros do STF – notícias importantes, mas que, no mínimo, deveriam pesar tanto quanto as investigações sobre as propostas dos candidatos.

O governo Lula até tenta pautar algum debate sobre políticas públicas. Na própria segunda-feira, a sua campanha publicou material contra as bets, que viraram o principal motor do endividamento das famílias no Brasil, segundo estudo da FIA Business School e do Ibevar.

Não é que os candidatos estejam escondendo o programa depois de eleitos. O problema é que não há debate nem cobertura de imprensa que amplie e critique esses programas. O resultado será um mandato em branco: quem ganhar poderá governar sem nunca ter sido cobrado por uma promessa específica. Na prática, isso torna impossível, daqui a um ou dois anos, chamar qualquer mudança de rota de traição em relação ao que foi prometido.

Beatriz Rey

Beatriz Rey

Doutorada em Ciência Política pela Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, e investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

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