O que realmente abala a campanha de Flávio Bolsonaro revela como a clivagem religiosa se tornou estruturante na política brasileira.
A eleição brasileira foi marcada por mais uma reviravolta na última semana. Após a GloboNews veicular a insatisfação da comunidade católica em resposta a uma mobilização evangélica para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil, a notícia se espalhou rapidamente pela internet. Foi, então, associada à campanha de Flávio Bolsonaro, que ali sofreu o seu primeiro abalo real.
O episódio da Nossa Senhora Aparecida é um dos mais interessantes na Nova República por revelar duas coisas sobre a política brasileira. Primeiro, o conflito religioso é estruturante e mobiliza a identidade de um modo que outras disputas, como a de classe, não mais o fazem. Segundo, o campo bolsonarista está imune a pressões decorrentes de escândalos de corrupção, mas não a desvios religiosos.
Para entender o que aconteceu: no dia 24 de setembro, a jornalista Maria Cristina Fernandes disse no programa Em Pauta da GloboNews: «Tem um movimento, na Igreja Católica, de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira e que pode, sim, surtir efeito entre os católicos a favor do Lula». Parto do pressuposto de que Maria Cristina, cujo trabalho acompanho e respeito, recebeu informações de fontes e as veiculou, como muitos outros jornalistas fazem no canal.
O episódio da Nossa Senhora Aparecida é um dos mais interessantes na Nova República por revelar duas coisas sobre a política brasileira. Primeiro, o conflito religioso é estruturante e mobiliza a identidade de um modo que outras disputas, como a de classe, não mais o fazem. Segundo, o campo bolsonarista está imune a pressões decorrentes de escândalos de corrupção, mas não a desvios religiosos.
Na sequência, diante da velocidade com que a notícia se espalhou pelas redes sociais associada à campanha de Flávio, a GloboNews fez duas retratações, desautorizando sua própria jornalista e afirmando que a notícia dizia respeito a uma proposição de lei apresentada em dezembro de 2007 e arquivada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados em agosto de 2008. O canal não deu à Maria Cristina o direito de explicar como obteve a informação.
A proposição de lei em questão é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Victório Galli (PMDB-MT), rejeitado por unanimidade pela Comissão de Educação e Cultura e, em seguida, arquivado. Galli se apresenta como bolsonarista de raiz. Foi assessor especial da presidência da República no governo de Jair Bolsonaro até ser demitido em 2019 por declarações ofensivas contra a comunidade LGBTI+. Neste ano, concorre ao cargo de deputado federal pelo PP e já declarou apoio público a Flávio.
A ligação entre o autor do projeto e o campo bolsonarista, portanto, existe. Mas Maria Cristina não fez essa ligação. Tampouco ligou sua apuração à campanha de Flávio. Quem se ligou ao evento foi o próprio Flávio, quando, no fim de agosto deste ano, declarou que seu primeiro ato na presidência seria um decreto determinando que «o Brasil é do Senhor Jesus Cristo». Com essa fala, praticamente aderiu a uma campanha de setores evangélicos radicais que buscam o apagamento do culto a Nossa Senhora Aparecida.
Mexer com Aparecida, portanto, não é mexer só com os católicos. É mexer também com um país que se formou ao fundir o catolicismo europeu com a cosmologia africana e indígena.
Nossa Senhora Aparecida é um símbolo do Brasil sincrético e miscigenado. Sua imagem foi encontrada em 1717 por pescadores no rio Paraíba do Sul e, desde então, carrega dupla devoção. É imagem católica oficial, mas também, para praticantes de religiões de matriz africana, sobretudo na Umbanda, uma face de Oxum, orixá das águas doces, do amor e da fertilidade. Mexer com Aparecida, portanto, não é mexer só com os católicos. É mexer também com um país que se formou ao fundir o catolicismo europeu com a cosmologia africana e indígena.
Em resposta, Flávio precisou gravar um pronunciamento dizendo que a história era uma mentira «sem pé nem cabeça» e que respeita «todas as religiões e também quem não tem religião». O candidato também acusou o Partido dos Trabalhadores (PT) de criar fake news. Segundo o Instituto Democracia em Xeque, o episódio gerou quase 1 milhão de posts e 8,5 milhões de interações em 55 horas. Em uma mesma live, Flávio reuniu o pastor evangélico Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e o líder de religião de matriz africana Sérgio Pina, numa tentativa de blindar a candidatura em nome da liberdade religiosa. A campanha também levou o caso à Justiça Eleitoral, e o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), André Mendonça, determinou a remoção de centenas de publicações que apresentavam a história como fato.
Segundo o Instituto Democracia em Xeque, o episódio gerou quase 1 milhão de posts e 8,5 milhões de interações em 55 horas.
Que o primeiro abalo da campanha de Flávio tenha sido o episódio de Nossa Senhora Aparecida mostra o peso da clivagem religiosa na política brasileira. O caso não envolve só os evangélicos, que costumam ganhar holofotes na cobertura midiática. Afetou também os católicos, que se reposicionaram diante da pluralização religiosa no país. Aliás, a rede católica tem alcance e densidade nas redes sociais, o que ficou evidente pela rapidez com que a notícia se espalhou.
Entretanto, conforme divulgou a Agência Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifestou «grave preocupação» com alguns retrocessos no campo da ética e do cuidado com os pobres. Na designada Carta de Ano Novo de lideranças católicas refere-se que, «no âmbito da convivência democrática, o ano de 2025 foi marcado por profundas tensões e retrocessos sociais, que deixaram feridas abertas no tecido social. Algumas experiências fragilizaram seriamente a confiança nas instituições e desafiaram as pessoas de boa vontade, que acreditam numa sociedade mais justa e fraterna». Exemplos? «A perda de decoro e a falta de responsabilidade por parte de algumas autoridades, especialmente do nosso Congresso Nacional; Enfraquecimento da ética e o aumento da corrupção na vida pública; fragilização dos mecanismos democráticos, por causa de interesses econômicos e disputas de poder.» Segundo a mesma fonte, «a democracia, com sua exigência de diálogo, suas instituições, seus freios e contrapesos, é patrimônio do povo brasileiro e precisa de cuidado e promoção».
O episódio mostra também que casos de corrupção podem não abalar o bolsonarismo, mas quaisquer episódios que toquem no que lhes é mais caro – e a religião é uma delas – podem abalá-lo. Não importou o esquema das rachadinhas (desvio de salários de assessores via Fabrício de Queiroz que rendeu a Flávio denúncia por organização criminosa e lavagem de dinheiro). Não importou a loja de chocolates na Barra da Tijuca, apontada pelo Ministério Público como fachada para a lavagem de dinheiro desse esquema. Não importam as homenagens a milicianos, como a que Flávio prestou a Adriano da Nóbrega, morto em confronto policial e apontado como um dos chefes da milícia carioca. Não importou o rastro do Banco Master, com áudios e mensagens em que Flávio pede cerca de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre o seu pai, Jair Bolsonaro. Importou a Nossa Senhora Aparecida.
O episódio mostra também que casos de corrupção podem não abalar o bolsonarismo, mas quaisquer episódios que toquem no que lhes é mais caro – e a religião é uma delas – podem abalá-lo.
A cerca de uma semana do primeiro turno da eleição presidencial, o caso Nossa Senhora Aparecida mostra que boa parte do que mobiliza o eleitor brasileiro escapa às categorias com as quais normalmente explicamos a política. A fé não pode mais ficar fora das nossas análises.