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E a extrema-esquerda?
Olhamos para o Parlamento, para as televisões, para o debate público, e o que vemos? O ressurgimento em força de um discurso bafiento, carregado de preconceitos que julgávamos definitivamente enterrados no século passado. Em Portugal, a extrema-direita não só cresceu como se instalou e alastra confortavelmente nas instituições. Organiza cimeiras do ódio em solo nacional, trazendo figuras internacionais que vários países europeus proibiram de cruzar as suas fronteiras. É o caso de Martin Sellner, expulso da Suíça e impedido de entrar no Reino Unido e nos Estados Unidos, e que, em maio de 2026, discursou à vontade no Porto na Remigration Summit, entre muitos outros.
Mas perante toda a evidência do perigo que este radicalismo representa, a direita parlamentar e o seu coro de comentadores adotaram uma tática de distração: o whataboutism.
«E a extrema-esquerda?», perguntam eles. Uma e outra vez, até à exaustão.
Ouçam um podcast, um painel de comentadores, uma sessão do plenário. Faz-me lembrar uma dança da chuva, invocam este inimigo imaginário com um desespero quase ritualista, na esperança de que, se repetirem a palavra vezes suficientes, ela acabe por nascer do céu por magia, apenas para legitimar a sua narrativa de mal equivalente. A verdade é que a extrema-esquerda em Portugal é uma inexistência ou uma irrelevância política e operacional há décadas, mas o espantalho é demasiado precioso para ser abandonado.
A janela de Overton deslizou tanto que hoje qualquer nuance moderada é apelidada de radicalismo de esquerda. O Partido Socialista -sim, esse centro, tantas vezes tão pouco à esquerda que custa a classificá-lo como tal - é rotulado de «extrema-esquerda» pelos colegas do PSD que, durante décadas, caminharam lado a lado.
Se os fundadores históricos da nossa democracia, que criaram os partidos da direita moderada, aparecessem hoje no espaço público, seriam catalogados como perigosos radicais de esquerda. E, na maior das hipocrisias, a nossa extrema-direita, assente na intimidação, é branqueada e vendida como «morninha» ou inofensiva.
Se os fundadores históricos da nossa democracia, que criaram os partidos da direita moderada, aparecessem hoje no espaço público, seriam catalogados como perigosos radicais de esquerda. E, na maior das hipocrisias, a nossa extrema-direita, assente na intimidação, é branqueada e vendida como «morninha» ou inofensiva.
Porque é que há pouco falei em dança da chuva? Porque isto vem de uma enorme vontade de acreditar, o que muitas vezes é a base da fé. Só que aqueles que hoje andam com a pátria na boca, a cruz ao peito e as «virtudes» como bandeira, seriam os primeiros a berrar por castigo na praça pública se Jesus voltasse amanhã, com o seu discurso de partilha de pão, amor ao próximo e oposição aos vendilhões do templo. Esses mesmos «crentes» crucificavam-no três vezes! E faziam-no em nome da ordem, acusando-o de ser um perigoso radical de extrema-esquerda.
Num mundo onde o outro é visto como um concorrente, uma ameaça ao nosso quinhão de sobrevivência, era expectável o crescimento de uma ideologia que vive do medo permanente, do egoísmo e do ódio ao diferente, potenciada por algoritmos de redes sociais desenhados para premiar a raiva.
Se pensarmos bem, faz todo o sentido a extrema-direita crescer no auge desta era de individualismo. Passamos as últimas duas décadas a isolar-nos cada vez mais, a migrar para o digital e a cultivar um certo egoísmo. Ora, num mundo onde o outro é visto como um concorrente, uma ameaça ao nosso quinhão de sobrevivência, era expectável o crescimento de uma ideologia que vive do medo permanente, do egoísmo e do ódio ao diferente, potenciada por algoritmos de redes sociais desenhados para premiar a raiva.
Por oposição, a esquerda sempre foi mais fruto de uma união pela sobrevivência - uma resposta coletiva de quem precisa de se juntar para não ser esmagado pelo grande capital.
E aqui reside a distinção que a nossa sociedade recusa: quando a extrema-direita age, ela ataca maioritariamente grupos e indivíduos — vidas humanas. Ameaça de morte, coage, usa armas de fogo e planeia atentados, como vimos no caso do Movimento Armilar Lusitano (MAL). A ação da extrema-esquerda, quando existe, tende a ser o ataque ao património e à propriedade. E eu deixo ao vosso critério: haverá alguma ambivalência entre vidas humanas e bens materiais?
Estaremos nós tão anestesiados que colocamos no mesmo prato da balança uma parede pintada por ativistas do clima ou uma vidraça partida e uma milícia neonazi armada que planeava assassinatos? Não louvamos a violência, venha de onde vier, mas também não vamos fingir uma falsa equivalência.
Este assunto não se esgota nas nossas fronteiras, longe disso. Nós somos apenas mais um país que ficou infetado com esta onda reacionária.
No passado dia 16 de julho, Washington acolheu uma cimeira internacional convocada por Trump para debater o «ressurgimento do terrorismo de extrema-esquerda». Na abertura, o secretário de Estado, Marco Rubio, descreveu o ativismo de esquerda como um «mal singular» e «inimigo da civilização», enquanto Stephen Miller proferia um discurso de contornos claramente fascistas, atacando até a aparência física dos opositores progressistas. A intenção de Trump é óbvia: criminalizar a «Antifa» (um movimento descentralizado e sem líderes) para obter as bases jurídicas que lhe permitam perseguir e asfixiar financeiramente qualquer oposição.
A nossa atitude enquanto país é avassaladora porque ocorre em paralelo com o perigo que nos bate à porta. Em junho, o Ministério Público acusou nove membros do MAL por crimes de terrorismo. Uma milícia neonazi que monitorizou as rotinas de Montenegro, planeou atentar contra a sua vida, infiltrou-se na PSP e fabricou dezenas de armas de fogo com impressoras 3D. Tinham uma lista com dezenas de políticos, ativistas, e figuras que identificaram como ameaças. O próprio Ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi claro no Parlamento: «A ameaça de extrema-direita é muito maior. Têm armas, matam, ameaçam, coagem.»
Mesmo sabendo que reputados investigadores de contraterrorismo americanos denunciaram o evento como uma politização grosseira, e que parceiros europeus como a Alemanha e a Holanda se recusaram a alinhar por não verem qualquer ameaça de esquerda nos seus territórios, Portugal fez questão de marcar presença. Porque a ameaça que mais cresce e preocupa internacionalmente é a extrema-direita, o nosso Governo não enviou ministros; limitou-se a mandar a «arraia-miúda» - a Embaixada em Washington.
Ainda assim o cheiro que isto emana é o do pior período do século passado.
A nossa atitude enquanto país é avassaladora porque ocorre em paralelo com o perigo que nos bate à porta. Em junho, o Ministério Público acusou nove membros do MAL por crimes de terrorismo. Uma milícia neonazi que monitorizou as rotinas de Montenegro, planeou atentar contra a sua vida, infiltrou-se na PSP e fabricou dezenas de armas de fogo com impressoras 3D. Tinham uma lista com dezenas de políticos, ativistas, e figuras que identificaram como ameaças. O próprio Ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi claro no Parlamento: «A ameaça de extrema-direita é muito maior. Têm armas, matam, ameaçam, coagem.» O próprio ministro responsável pelas forças de segurança assume que a ameaça de esquerda é inexistente ou desproporcional em Portugal.
Ainda assim, o Estado vai a Washington importar inimigos por encomenda. O problema é que, ao normalizarmos esta mentira e ao criarmos equivalências absurdas, estamos a anestesiar o país. Mas que os arquitetos desta farsa e os cúmplices do centro político se lembrem de um detalhe: a resignação pacífica tem limites.
Quando os canais democráticos e de justiça são asfixiados pela propaganda e pela mentira, a resposta social surge inevitavelmente. A História não se cansa de nos avisar de que é sob o peso do sufoco que se preparam as respostas mais duras da população. É assim que as revoluções acontecem.
Susana Marques
Designer e investigadora.
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