Egoístas nas tendas, polícias de vendas, rentistas nas vivendas e fascistas com agendas
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional. Até hoje, nada de novo.
«Hegel fez notar que os grandes acontecimentos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa» Isto tanto vale para Luís Bonaparte, a quem esta introdução de Marx está destinada, como para Luís Montenegro. No dia 17 de setembro, o Primeiro-Ministro, em declaração ao país, repetiu o hábito já consagrado da proclamação de novas medidas.
O anúncio com pompa e circunstância de grandes, enormes, avultadas e, sobretudo, estonteantes medidas, foi feito após uma reunião do conselho de ministros que, alegadamente, durou dez horas, o que nos fazia suspirar por um plano macroeconómico que colocasse Portugal no pelotão da frente do universo e, quem sabe, também da Europa. Só que Luís Montenegro começou a falar e… onde é que já ouvimos isto? Foi no debate da moção de censura, uma semana antes, que o Primeiro-Ministro anunciou as duas principais medidas que agora regurgita. Da primeira vez foi como tragédia, desta vez veio como farsa.
O anúncio com pompa e circunstância de grandes, enormes, avultadas e, sobretudo, estonteantes medidas, foi feito após uma reunião do conselho de ministros que, alegadamente, durou dez horas, o que nos fazia suspirar por um plano macroeconómico que colocasse Portugal no pelotão da frente do universo e, quem sabe, também da Europa...
A primeira medida anunciada foi o bónus extraordinário para os pensionistas, escalonado pelo valor de cada pensão. Não é uma inovação de Luís Montenegro. Sim, o Primeiro-Ministro noutros anos já o tinha feito, mas este tipo de suplementos foi iniciado por António Costa, numa altura de elevada inflação e compressão das reformas reais. Seria preferível um aumento fixo e percentual das pensões, ao invés de suplementos casuísticos e sem garantia de continuidade (e que não garantem, também, a manutenção do poder de compra).
Seria preferível um aumento fixo e percentual das pensões, ao invés de suplementos casuísticos e sem garantia de continuidade (e que não garantem, também, a manutenção do poder de compra).
A descida de IRS até ao 6.º escalão é mais uma medida repetida, que não traz grandes novidades, nem grandes benefícios - falamos de cerca de 5€ por mês para um rendimento médio de 1.500€. Uma fortuna tão grande que quase compensa o aumento dos combustíveis que temos vindo a sentir na pele há vários meses. Aliás, desconfio que, sem esta poupança fiscal, os portugueses não teriam conseguido ir à bomba colocar combustível esta semana. Pela 3.ª vez, porque os 20€ de cada vez mal dão para chegar ao próximo posto de abastecimento.
Sobre os combustíveis, tirando - ora, que surpresa - a reciclagem de uma medida para apoio às empresas particularmente afectadas, nada de propriamente novo. Além de mais um novo estímulo à procura, de fora ficou o reforço sério da oferta dos transportes públicos, o que poderia, de facto, mudar radicalmente o jogo e ajudar a fazer face à subida astronómica dos custos do combustível.
António Costa também tinha mexido na carga fiscal sobre o trabalho, mas no caso no IRS jovem, uma benesse desigualitária aos jovens mais premiados do país. Também sou da opinião que os rendimentos do trabalho podiam ser menos taxados, mas para 5€ por mês, mais valia olhar para outros problemas. E, na verdade, Luís Montenegro quer tanto piscar o olho ao eleitorado que acabou de olhos fechados. Estima-se um custo de 800M€ para estas medidas. Se se somar o IRS jovem, temos aí um valor significativo para investir na economia portuguesa, dos transportes públicos à ferrovia, da saúde ao investimento directo na economia. António Costa, sobretudo aquando da maioria absoluta, não quis mudar o país. Luís Montenegro não quer nem sabe fazê-lo.
Ao que parece, Luís Montenegro não consegue romper com as grilhetas do passado nem com a herança de António Costa. Assim sendo, nunca fará História.
Não sendo marxista, reconheço imenso valor a Marx, sobretudo na sua escrita e, em particular, nas suas introduções e conclusões. Logo após a introdução que aqui se replicou, Marx continua e diz que as pessoas fazem a sua própria História, não nas condições por eles escolhidas, mas antes sob condições herdadas. Ao que parece, Luís Montenegro não consegue romper com as grilhetas do passado nem com a herança de António Costa. Assim sendo, nunca fará História.
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O tamanho da conta bancária não dá o direito a ninguém de se pôr à frente do grupo em que está inserido nem de prejudicar aquele em prol do gáudio individual.